A crer nas suas declarações ao Correio da Manhã, uma das “resoluções de Ano Novo” de Manuel Alegre foi tentar ser capaz de continuar a dizer o maior número possível de barbaridades, e devo dizer que até agora, está a ter grande sucesso: a propósito da crise actual, Manuel Alegre afirmou que “o porquê” desta “está na falência das teorias de auto-regulação dos fundamentalistas da ‘mão invisível’, que levaram ao colapso financeiro e à recessão económica”.
Por muito que se lhes explique, pessoas como Manuel Alegre não conseguem perceber como esta crise tem muito a ver com a intervenção estatal na economia, e não com o “capitalismo selvagem” que só existe nos sonhos dos que passam a vida a criticá-lo. Mas o maior erro de declarações como as de Alegre não está na interpretação errónea das origens da crise, mas na “receita” que passam para sair dela. Alegre considera que a solução para a grave crise económica internacional “implica um novo modelo de desenvolvimento económico e o primado da política, libertando-a de interesses ilegítimos que se têm sobreposto ao bem comum e ao interesse geral”. Ou seja, Alegre acha que a “mão visível” do Estado se deve sobrepôr à “invisível”. Quando ele fala em “primado da política”, ele está a dizer que a distribuição da riqueza deve ser definida por vontade política, e não pelo resultado da livre interacção das pessoas.
O erro de Alegre , e de todos os outros que têm dito o mesmo nos últimos meses, está em pensarem que tudo não passa de uma questão de avaliar qual das duas “mãos” obtem resultados mais satisfatórios, e depois escolher entre elas (Alegre escolhe a “visível”, claro, porque acha que conduz a resultados mais “justos”), quando na realidade, para o bem e para o mal, não podemos escapar à “mão invisível”, por muito que estabeleçamos o “primado da política” (ou seja, da vontade dos políticos) sobre “a economia” (ou seja, a livre interacção das pessoas): num braço-de-ferro, a “mão invisível” vencerá sempre a “mão visível”.
Deixemos de lado o facto de, na raíz desta crise, não estar propriamente “o mercado entregue a si próprio” (convém lembrar que os responsáveis políticos exigiam que os bancos emprestassem dinheiro a quem não o poderia pagar de volta), e concentremo-nos apenas na evidência de que os indivíduos (ou seja, os “agentes” do mercado), na interacção uns com os outros, fazem asneira, asneira essa que conduz a resultados “menos positivos”: a intervenção estatal nunca irá eliminar a existência de resultados negativos, nunca irá eliminar as perdas resultantes do mercado.
O “mercado” (a interacção dos indivíduos) é um “facto da vida”: não vivemos num mundo de abundância, no qual podemos ter tudo, quando quisermos, e sem ter de fazer nada por isso. Vivemos num mundo em que os recursos são escassos, e o tempo que temos para os consumir e trabalhar é também ele escasso. Se vivêssemos isolados, teríamos de abdicar de muito do que gozamos, por não termos tempo de o produzir ou desfrutar: para ver televisão, eu teria que fabricar o aparelho, escrever o guião da série, filmá-lo, interpretá-lo, e depois sentar-me a ver (precisaria ainda de fazer os cabos eléctricos, o sofá, etc.). Como não vivemos isolados, dividimos o trabalho: a Sony fabrica a minha televisão, David Simon escreve The Wire, a melhor série de televisão de sempre, Dominic West e os outros actores interpretam, outros realizam os vários episódios, e eu faço aquilo que faço melhor: sento-me no sofá a ver.
O que aconteceu aqui foi o mercado a funcionar: eu quero ver The Wire, por isso pago à Sony, a David Simon, Dominic West e o resto da malta para ter tudo aquilo que preciso para ver The Wire. Eles, que querem comer, vendem-me aquilo que eu quero. O mercado é apenas e só isto: uma série de gente à procura de algo, e a oferecer algo em troca.
Por vezes, esta interacção dá asneira. Nem David Simon, autor da melhor série de televisão de sempre, é perfeito. Ninguém é (se nem eu sou, quanto mais os outros, caro leitor). E portanto, por vezes, os “agentes” do mercado fazem escolhas erradas: por exemplo, começam a emprestar dinheiro a quem não poderá nunca vir a saldar a dívida. Um dia, as consequências dessas escolhas erradas acabam por apanhá-los (este é outro facto da vida: as consequências da asneira correm sempre mais depressa que nós), e instala-se uma crise. Os governantes, preocupados (o que é louvável), prestam-se a dizer que a culpa é do “mercado”, e que este precisa de ser “corrigido”: é preciso que a “mão invisível” trabalhe em conjunto com a “mão visível do Estado”. Mas ao contrário do que os governantes pensam, a esfera da intervenção estatal não é independente da esfera do mercado. No fundo, o Estado é apenas mais um “agente”, cujas escolhas afectam o resultado do mercado tal como as dos outros agentes. Isto quer dizer que a intervenção estatal não “corrige” o mercado, porque o Estado é apenas um entre muitos dos que nele participam, e apenas o afecta, como o afectam todos os seus agentes.
A única diferença está em que o Estado, ao contrário dos outros “agentes”, pode obrigar os outros a agirem como ele quer: por exemplo, pode proibir a oferta de determinados produtos financeiros, ou criar as regras de remuneração dos gestores que todos os bancos devem seguir. Ou pode “proteger” a produção de produtos nacionais, criando barreiras à entrada de produtos estrangeiros em determinados sectores da actividade (como a agricultura ou o calçado). Isto não vai “corrigir” o mercado, que continua a funcionar como antes: o preço desses produtos continuará a ser o resultado da relação entre a oferta desse produto e a procura de que ele é alvo, e portanto, se o Estado decreta que a sua oferta será escassa (que é o que o Estado faz quando cria barreiras à competição de produtos estrangeiros), e a procura continuar a ser a mesma, o preço vai aumentar. Os produtores ficam contentes (ganham mais dinheiro por fazerem o mesmo trabalho), mas os consumidores (que no fundo, são produtores de outros produtos), não gostarão muito da brincadeira (consomem o mesmo por mais dinheiro, e produzem o mesmo pelo mesmo dinheiro, ou seja, mais tarde ou mais cedo acabam por consumir menos por não terem mais dinheiro). Isto faz com que reclamem junto do Estado: também eles querem ver os seus produtos protegidos (ou seja, que o Estado lhes crie uma situação de escassez para que eles o possam vender mais caro). Assim, o Estado não só não “corrigiu” o mercado (ele continua funcionar da mesma maneira), como não eliminou os resultados “injustos” (aqueles que queria corrigir quando “protegeu” determinados agentes da competição): apenas transferiu a competição entre os agentes, do campo da interacção entre eles para o dos corredores do poder, onde quem reclama mais tem mais benefícios. Não eliminou o “mercado” nem a sua “desigualdade” e “injustiça”, apenas criou um “mercado” da influência política, em que o que conta não são as escolhas voluntárias dos indivíduos, mas as escolhas de alguns deles, aqueles que estão no poder: a “desigualdade” continua a existir, e a “injustiça” é ainda maior. A “mão invisível” fez-se sentir, e porque a “visível” exagerou, obriga a “invisível” a forçar o seu caminho. Ela não traz sempre resultados agradáveis, mas num braço-de-ferro, a “mão invisível” vencerá sempre a “visível”.
Todos aqueles que correm a afirmar que esta crise mostra como o “mercado” precisa do Estado deveriam ter isto em atenção. É claro que, sem Estado, o mercado não trará resultados agradáveis para muitos dos seus agentes: se não houver o Estado para salvaguardar o cumprimento da lei, eu posso ir à loja da Sony roubar a minha televisão que ninguém me vai castigar por isso. Mas se o Estado obrigar a Sony a vender as televisões a um preço mais baixo do que aquele que eu estou disposto a dar-lhes, a Sony vai produzir menos televisões. A “mão visível” quis corrigir o que faz a “mão invisível” e esta fez mais força: a intervenção estatal no mercado não altera a forma como este funciona, apenas altera a resposta dos outros agentes, que se adaptam às novas condições. Se é verdade que o “mercado”, para funcionar, precisa da “regulação” do Estado, também é verdade que essa “regulação” não pode ser excessiva: se a “regulação” for muito rígida, dificultará a inovação, o motor do densevolvimento capitalista; se fixar os salários dos gestores dos bancos, estes ou se transferem para outras actividades (deixando gente incompetente nos bancos), ou arranjam outras formas de obterem mais rendimentos, que podem conduzir a comportamentos que se traduzem em resultados mais negativos para o resto da sociedade. O Estado pode dar apoios aos que menos têm (algo que é perfeitamente legítimo e necessário), mas para isso precisa de tirar dinheiro aos que mais produziram, o que desincentiva o esforço dos que trabalham e incentiva a inacção dos que nada fazem. O “mercado” precisa do Estado, mas se a intervenção do Estado for excessiva, o “mercado” responderá com o dobro da força, e o resultado será bem mais “injusto” que aquele que se pretendeu “corrigir”. A relação entre o “mercado” e o Estado assenta num equilíbrio precário, e a definição de qual a forma e dimensão da intervenção estatal é uma tarefa que exige prudência e reflexão. Se há algo que esta crise, bem como as reacções a ela, tem mostrado, é que prudência e reflexão é algo que tem sido bem escasso. E como costuma acontecer quando há escassez de algo, o preço que se paga é elevado.



Os comentários feitos pelos meus colegas insurgentes
Na sua entrevista ao Expresso deste Sábado, Manuela Ferreira Leite foi confrontada com a hipótese de “pedir” uma maioria absoluta para o PSD (alguém deveria explicar aos senhores jornalistas que nenhum eleitor “dá” ou “tira” qualquer maioria absoluta. Todos eles votam em quem preferem que venha a governar, e a ausência de uma maioria absoluta não significa que eles tenham querido entregar o poder a um determinado partido, mas sem maioria absoluta. Apenas significa que a maioria dos eleitores preferia outros partidos, sem que nenhum deles tivesse conseguido um número suficiente de apoiantes para ser o mais votado). A líder laranja respondeu que não, que não o iria fazer, e acrescentou que “há muitas formas de estabilidade”, e que dependendo da “forma como os partidos saírem das eleições”, logo reflectiria sobre a possibilidade de realizar um qualquer acordo parlamentar ou formar uma coligação.
