Depois do meu texto de ontem acerca da pouca credibilidade da ideia de que Huckabee e Romney estariam a dividir o voto “anti-McCain”, e que se Huckabee não estivesse na corrida, Romney teria melhores resultados, o André esclarece que, ao citar a notícia que comentei, ele não estava a emitir uma opinião. Eu devo também esclarecer os leitores que o meu texto não era uma crítica ao André, pois não pensei que aquela fosse a opinião dele, e percebi a intenção “informativa” do seu post.
Devo também esclarecer outra coisa: eu não pretendia negar os factos apontados por essa notícia (os eleitores que se consideram “conservadores” dividiam-se entre Huckabee e Romney), mas sim contestar a interpretação que é feita a partir desses factos. É um facto que quem se designa “conservador” tendia a escolher Huckabee ou Romney. Mas isso não quer dizer que os “conservadores” que votam Huckabee, na ausência deste, votariam onde votam os outros “conservadores”. Para saber isso, é preciso ver qual a sua segunda escolha, e como escrevi, ela tendia a ser McCain. Daí eu ter dito que Huckabee estava a roubar votos a McCain, não a Romney, e que esse efeito só não seria mais grave para McCain porque há a possibilidade de Huckabee vir a ser o seu candidato a vice-presidente.
Será no entanto interessante ver o que acontece agora que Romney desistiu. Pois se era evidente, para quem prestasse alguma atenção ao que se estava a pssar nos vários estados, que os eleitores de Huckabee se virariam para McCain caso o seu candidato desistisse, não é claro (pelo menos para mim), o que acontecerá com os eleitores de Romney. Huckabee não roubava votos a Romney, mas roubaria Romney votos a Huckabee? Preferirão os eleitores de Romney Huckabee ou McCain? Tenho as minhas dúvidas, pois o eleitorado do Nordeste que preferia Romney dificilmente votará no sulista evangélico Huckabee, e a justificação de Romney (hipócrita como tudo nele) para a sua desistência (”unir o partido”) aponta para um apoio a McCain, cada vez mais visto como o inevitável vencedor.
Romney ainda assim era a candidatura mais séria (usando as palavras de um insuspeito lewrockwelliano).
McCain é o Dr Strangelove onde é preciso fazer a guerra para fazer a paz…não, george Orwell dizia que a guerra não é feita para ser vencida mas sim feita para não acabar.
Exactamente como é que se vence uma guerra contra o “terrorismo”? Invadindo e bombardeando (uma especialidade sua) o mundo inteiro?
Enfim, o conceito é tão “retarded”… Reagan retirou as tropas do Líbano depois de perceber o irracional que é meter-se nos ódios primários (e irracionais) e tribais dos outros.
…acham como jacobinos que vão mudar culturas tribais/clãns para instituir um “democracia ocidental” pacifica, dado o exemplo “pacífico” deles próprios.
E como se os próprios iraquianos (incluindo os Sunitas saddamitas “insurgentes”) não tratassem da Al Qaeda mesmo que o Iraque se desmembre de forma caótica.
Comentário por CN — Fevereiro 7, 2008 @ 10:44 pm
Caro CN,
Endereçando primeiro o seu comentário anterior: o McCain um neo-conservador? Acredita seriamente que o candidato apoiado e aconselhado pelo Howard Baker, pelo Bent Scowcroft, pelo Dick Armitage, pelo Kissinger, pelo Powell é que é o neo-conservador? O candidato que reclama há décadas por uma diminuição nos gastos com a defesa, por uma diminuição das tropas estacionadas no estrangeiro e que foi contra o envolvimento militar norte-americano no Haiti, na Somália e nos Balcãs é neo-conservador? O candidato que mais sonoramente criticou o Rumsfeld? Afinal, com quem estiveram os neo-conservadores há oito anos? Tem lido a National Review? A revista par excellence do neoconservadorismo, que apoiou Romney, tem sido a principal referência dos ataques a McCain. E, no entanto, o McCain é o neoconservador? Pelos vistos, nem os próprios neo-conservadores o reconhecem.
O McCain é provavelmente o político norte-americano que mais falou e escreveu sobre política externa e militar nos últimos 30 anos. Tudo isso está disponível. Apodar de “neo-conservador” e “Dr Strangelove” qualquer um que não concorde consigo no caso específico da guerra do Iraque não passa de um “straw man” ou, numa perspectiva menos caridosa, de simples “name calling”. O rationale do McCain para manter o esforço militar e político no Iraque não é neo-conservador. O McCain não acredita no nation-building; tampouco professa algum tipo de idealismo, com mais ou menos esteróides.
Aconselho-o francamente a ler, sem preconceitos, o discurso feito há momentos pelo McCain na CPAC. Nem que seja apenas porque é refrescante (para o adjectivar de forma ligeira) ouvir um candidato presidencial do GOP a citar Burke.
Mas falo em Burke para o aconselhar igualmente, e desculpe-me estes atrevimentos, a (re)ler o texto que McCain afirmou uma vez ser o mais importante no seu entendimento sobre qual é a forma justa e apropriada de um legislador se conduzir: o “Speech to the Electors of Bristol” - e aduza o registo histórico das posições que o Senador tomou e manteve, contra a vontade da “base”, do “movimento”, do eleitorado e da opinião pública em geral para verificar que não foi uma declaração vã. Creio que assim perceberá a razão pela qual quando o McCain afirma que “I will not sign a bill with earmarks in it, ANY earmarks in it”, há alguns conservadores que acreditam nele e dificilmente acreditariam em mais alguém.
Permita-me que recupere Burke uma última vez: nas “Letters on a Regicide Peace” uma aproximação para o apoio de McCain à guerra no Iraque. No contraste entre a condução de Eisenhower (que, pelo que percebo, recolhe os seus favores) na questão da guerra da Coreia e a de Nixon na do Vietname, uma aproximação à sua posição actual.
[1]http://www.examiner.com/blogs/Yeas_and_Nays/2008/2/7/Text-of-John-McCains-CPAC-Remarks
[2]http://press-pubs.uchicago.edu/founders/documents/v1ch13s7.html
Comentário por HO — Fevereiro 7, 2008 @ 11:57 pm
Penso que em 2000 os neo-conservadores (ou pelo menos o William Kristol) apoiavam McCain.
Comentário por Miguel Madeira — Fevereiro 8, 2008 @ 12:57 am
Sim, não deveria ter generalizado; ainda menos ter embarcado numa geneologia da culpa, numa “inocência por dessasociação”. O Kristoll Jr. e o Scheunemann, por exemplo, foram, e são, apoiantes do McCain. A partir dessa perspectiva, dá para fazer ambos os casos.
O mais importante, julgo eu, é que o McCain tem pensamento próprio sobre a política externa, tem doutrina. É esse o ponto. E não é nenhum neoconservador, seja na política externa, seja na doméstica - por muito amplo que seja o espectro dos seus apoiantes.
(A propos, ao contrário do CN, eu não entendo “neoconservador” como um termo minimamente pejorativo, mesmo discordando em pontos importantes de gente como o Kristol ou o Kagan. Não esqueço que nos anos 60 e 70 foi o trabalho de gente como o Charles Murray, o Lipset ou o Kristol Sr. que mais contribuí para desanuviar o ambiente pro-estatista que existia na altura.)
Comentário por HO — Fevereiro 8, 2008 @ 1:39 am
Para CN os neoconservadores fizeram a Guerra. Mas não é verdade que foram os únicos. Rumsfeld por exemplo não é nem nunca foi um Neoconservador embora tivesse Wolfowitz como secretário de defesa.
Basta ver a votações e ainda mais importante as declarações para se perceber que a Invasão foi decidida por uma abrangente coligação Democrática-Republicana. O que se quiz fazer da Invasão: Democracia no Iraque, eleições etc. aí sim foi o grande impulso neoconservador.
Comentário por lucklucky — Fevereiro 8, 2008 @ 5:05 pm