O Insurgente

Dezembro 20, 2007

Regulação máxima, emprego mínimo

Arquivado como: Comentário, Economia, Política, Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:31 am

O Sr. Azevedo tem uma pequena empresa gráfica, com poucos, 4, 5 funcionários. Todos com contrato de trabalho, pagamentos em dia na Segurança Social, fruto do enorme susto que a última inspecção lhe pregou e lhe ia custando o esforço de uma vida. Hoje só contrata com total segurança. Apenas quando sabe que terá condições de pagar sem atrasos, pagar sem falhar os descontos devidos e, muito importante, sem que o pagamento dos ordenados dos seus funcionários, o obrigue a deixar de liquidar o IRC, o IVA e outros impostos e taxas.

O que o Sr. Azevedo quer agora é segurança.

Antes, não. Antes, não há muitos anos, se o Sr. Azevedo sabia de algum desempregado com vontade de trabalhar, arranjava-lhe algo que fazer. Pagava prontamente, mas não fazia descontos. Pior: Pagava à medida do trabalho. Um dia, podia ser mais, outro até menos. Nada muito certo. A única certeza era que quando havia trabalho havia pagamento e se o ex-desempregado (vamos chamar-lhe Sr. Antunes) quisesse sair, podia fazê-lo. O Sr. Antunes também sabia que, com o crescimento do negócio, ele seria o primeiro beneficiado.

Hoje não. Hoje, o Sr. Azevedo ao sair de casa de manhã cedo na última quinta-feira antes do Natal, viu o Sr. Antunes sentado no café a beber a bica da manhã. Não lhe dirigiu a palavra, tirou dele o olhar e seguiu em frente. Não pode colocar em risco a empresa e os outros trabalhadores a seu cargo. Tem de ter o cuidado que não tinha antes. Constrangido seguiu em frente. O Sr. Mário, dono do café, não cobrou a bica. Estes pequenos gestos, os tentáculos do bicho ainda não apanham.

19 Comentários »

  1. Caro AAA:
    É que não pode deixar de ser de outra maneira!…
    Friedman, entre outros, demonstrou-o bem.

    Comentário por antónio pinho cardão — Dezembro 20, 2007 @ 11:53 am

  2. “Antes, não há muitos anos, se o Sr. Azevedo sabia de algum desempregado com vontade de trabalhar, arranjava-lhe algo que fazer.”

    Era como o santo do Padre Américo, Deus o tenha. Não podia ver um menino descalço na rua, que o levava logo para casa.

    Comentário por caramelo — Dezembro 20, 2007 @ 11:53 am

  3. “Não podia ver um menino descalço na rua, que o levava logo para casa.”

    Caro caramelo, releia o post:
    “A única certeza era que quando havia trabalho havia pagamento e se o ex-desempregado (vamos chamar-lhe Sr. Antunes) quisesse sair, podia fazê-lo. O Sr. Antunes também sabia que, com o crescimento do negócio, ele seria o primeiro beneficiado.”

    Comentário por BZ — Dezembro 20, 2007 @ 12:05 pm

  4. Mas eu sei bem que antigamente era assim; não disse o contrário. Toda a gente tem muitas saudades. O meu avõ farta-se de suspirar.

    Comentário por caramelo — Dezembro 20, 2007 @ 12:43 pm

  5. Ai, este mundo idílico, em que todos os patrões são pequenos empresários que só não pagam mais porque não podem…

    Comentário por José Luiz Sarmento — Dezembro 20, 2007 @ 1:10 pm

  6. Ai, este mundo terrível em que vivemos, em que os pobres proletários são explorados por patrões sem escrúpulos até à exaustão…

    Comentário por N — Dezembro 20, 2007 @ 1:30 pm

  7. N. o mundo do Insurgências é o do senhor Azevedo, uma doce alminha que antigamente logo que via um desempregado na rua, levava-o de imadiato para a sua oficina. Agora o estado não deixa, coitado do senhor Azevedo.

    Comentário por caramelo — Dezembro 20, 2007 @ 1:47 pm

  8. -Em tudo pode existir bom senso, mas bom senso é o que o estado não possui! -Para uma empresa poder pagar um baixo salário de 500 Euros a um trabalhador, por acaso sabem qual o custo total da mão de obra? Estou a falar é claro da segurança social e IRS! Para poder pagar esse salário, quanto terá a empresa de produzir/facturar, já deduzido encargos IVA? Nem vou falar em derramas, IRC, mais impostos cobrados via fornecimento água, electricidade. Não será a excessiva carga fiscal, a primeira responsável por muitas situações sociais, cuja existência todos lamentamos?

    Comentário por António de Almeida — Dezembro 20, 2007 @ 1:51 pm

  9. Ai, que saudades do Senhor Dom Miguel…

    Comentário por José Luiz Sarmento — Dezembro 20, 2007 @ 3:19 pm

  10. Chamaram?

    Comentário por Miguel — Dezembro 20, 2007 @ 3:35 pm

  11. Não era você, era o outro. Mas se calhar vem a dar no mesmo…

    Comentário por José Luiz Sarmento — Dezembro 20, 2007 @ 5:15 pm

  12. “por acaso sabem qual o custo total da mão de obra? Estou a falar é claro da segurança social e IRS! Para poder pagar esse salário, quanto terá a empresa de produzir/facturar, já deduzido encargos IVA? Nem vou falar em derramas, IRC, mais impostos cobrados via fornecimento água, electricidade. Não será a excessiva carga fiscal, a primeira responsável por muitas situações sociais, cuja existência todos lamentamos?”
    Não sei se Vale o exemplo do sr. Azevedo.
    Mas sei que, de uma maneira ou de outra, essas minudências foram resolvidas a contento e o Benfica em 2001 não desceu de divisão.
    Quanto ao SMN, coitados dos países que o têm e contam menos desempregados que em Portugal.
    E para cada economista consagrado que defenda a relação SMN-Desemprego, haverá outro que se levantará a dizer o contrário.
    Quando decidirem e acertarem avisem s.f.f.
    Mas não sigam o exemplo de todos os srs. Azevedo.
    Porque a cama pode ser curta…

    Comentário por nem estranho não estranhar — Dezembro 20, 2007 @ 5:20 pm

  13. “Não era você, era o outro. Mas se calhar vem a dar no mesmo…”

    E eu a pensar que o Sr.Sarmento estava a ser simpático. Mil perdões pelo equivoco.

    Comentário por Miguel — Dezembro 20, 2007 @ 5:25 pm

  14. Não achou simpática a comparação? Não me diga que não gosta de se ver na companhia do outro?

    Comentário por José Luiz Sarmento — Dezembro 20, 2007 @ 6:53 pm

  15. Imagino que o outro já não faça grande companhia por estes dias.

    Comentário por Miguel — Dezembro 20, 2007 @ 7:01 pm

  16. Parece que faz, parece que faz…

    Comentário por José Luiz Sarmento — Dezembro 20, 2007 @ 9:38 pm

  17. É a sua experiência?

    Comentário por Miguel — Dezembro 20, 2007 @ 10:12 pm

  18. É. Vicariously, claro está.

    Comentário por José Luiz Sarmento — Dezembro 21, 2007 @ 1:10 pm

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