O Insurgente

Outubro 24, 2007

Erros no Público - Rui Tavares e o BCP

Arquivado como: Ambiente, Comentário, Economia, Media, Política, Portugal — André Azevedo Alves @ 12:17 pm

Logo no início do artigo de Rui Tavares publicado no Público de 18 de Outubro pode ler-se:

Há um ano e meio soube-se que o BCP dedicava quase noventa por cento dos gastos com pessoal aos salários dos administradores.

Um dado impressionante. Só que falso. Consultando os Relatórios e Contas do BCP constata-se que a referida proporção é, não de noventa por cento como Rui Tavares afirmou no Público, mas de cerca de cinco por cento. Uma pequena diferença portanto. Rui Tavares limitou-se a apresentar uma percentagem cerca de 20 vezes superior à real e - o que é mais grave - a dar a impressão aos seus leitores logo no início do texto que a quase totalidade dos gastos com pessoal do BCP era dedicada aos salários dos administradores (o que numa instituição com a dimensão do BCP seria francamente extraordinário…).

Mais do que a iliteracia económica e o registo de propaganda socialista (infelizmente relativamente comuns nas páginas do Público, assim como de outros jornais portugueses), o que choca é a total falta de verificação de um facto tão básico, ainda para mais dada a estranheza dos números apresentados e o facto de a afirmação vir logo no início do texto, servindo de mote para o que se segue.

O mesmo Rui Tavares, vale a pena recordar, tinha incorrido no seu anterior artigo em mais um erro factual grosseiro, desta vez relativo a Bjørn Lomborg ao escrever:

Bjørn Lomborg, grande rival público de Al Gore, admite agora que as alterações climáticas são reais e provocadas pelos humanos mas que não vale a pena perder com elas dinheiro que seria mais bem gasto no combate à malária

Isto quando Lomborg trabalha com base na aceitação da teoria do aquecimento global antropogénico pelo menos desde The Skeptical Environmentalist (publicado em 2001) e já tinha inclusivamente organizado um estudo em que essa questão é abordada na contexto de outros problemas globais: Global Crises, Global Solutions (publicado em 2004, sendo que a iniciativa que lhe serviu de base continua activa).

Assim vai a imprensa portuguesa dita de referência

5 Comentários »

  1. [...] se sabe, que os administradores do BCP são muito bem pagos), como refere o André Azevedo Alves nest post. O essencial da sua mensagem não sai - apesar da disparidade dos números - muito afectada. Mas [...]

    Pingback por blogue atlântico » Blog Archive » Reconhecer o erro — Outubro 24, 2007 @ 2:28 pm

  2. É como diz.Tendo o BCP cerca de 6 000 trabalhadores é fácil verificar o erro.Aliás as remunerações da administração foram tornadas públicas no âmbito da CMVM!

    Se bem me lembro, com as “ajudas”, andará á volta dos 10% do total de encargos com o pessoal.

    Que, como sabem, não é só remunerações!

    Comentário por Luis Moreira — Outubro 24, 2007 @ 11:40 pm

  3. Caro André Azevedo Alves:

    Com sinceridade, acho positivo que submeta os meus textos ao seu escrutínio apertado. Como deve imaginar, os factos que neles cito não surgem do nada. Mas fico sempre disposto a ler mais sobre o assunto e a rectificar onde for necessário. Aqui ficam os devidos esclarecimentos.

    ===
    BCP
    A fonte principal é este editorial da Agência Financeira de 16 de Fevereiro de 2006:
    http://www.agenciafinanceira.iol.pt/noticia.php?id=647673&div_id=1729
    “Os administradores do BCP são dos mais bem pagos de Portugal. Actualmente, a soma dos seus salários, juntamente com os «prémios» variáveis, atribuídos em função do desempenho, podem chegar a 10% dos lucros que, em 2005, foram de 753 milhões de euros. No ano anterior, a administração absorveu quase 87% do total pago pelo BCP em remunerações a todos os seus trabalhadores. ”
    Segundo o Público, também citado neste texto, o montante total das remunerações de administradores do BCP em 2004 foi de 31 milhões de euros. Também o Expresso Economia publicou à época dados semelhantes. Tanto quanto sei, não foram desmentidos. O BCP também não me enviou nenhuma nota sobre incorrecções no meu texto (ao contrário do habitual nestes casos). Rectifico sempre qualquer erro nos meus artigos, rapidamente e sem estados de alma. Como sempre, estou de boa fé e sustentado em fontes de boa referência – se há “iliteracia económica”, ela não é minha mas da imprensa especializada. Mas estou interessado em ver os números do relatório e contas.
    Quanto ao “registo de propaganda socialista”, é uma interpretação sua, porventura correcta. Não é censurável em si mesmo.
    ===
    Bjørn Lomborg
    O Bjørn Lomborg sempre admitiu a hipótese de que as alterações climáticas fossem antropogénicas, embora minimizasse a sua gravidade e a possibilidade de se fazer qualquer coisa para contrariar os seus efeitos. Aquele “agora” pode induzir em erro, embora não seja central ao argumento expendido nem factualmente incorrecto (não pressupõe uma mudança de opinião, embora a sugira pelo que é dito nos parágrafos anteriores). Agradeço o reparo e vou corrigir.

    Comentário por rui tavares — Outubro 25, 2007 @ 3:42 am

  4. Números do “Relatório e Contas” de 2006 do Banco Comercial Português (BCP)

    http://ocastendo.blogs.sapo.pt/51071.html

    Comentário por António Vilarigues — Outubro 25, 2007 @ 1:45 pm

  5. [...] fica a resposta de Rui Tavares ao post Erros no Público - Rui Tavares e o BCP: Caro André Azevedo [...]

    Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Erros no Público - Resposta de Rui Tavares — Outubro 26, 2007 @ 2:12 am

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