O Insurgente

Outubro 22, 2007

Quando a verdade não interessa (2)

Arquivado como: Blogosfera, Comentário, Cultura, Educação, Media, Política, Portugal — André Azevedo Alves @ 2:04 am

A forma como se desenvolveu a recente polémica em torno das declarações de James Watson é, independentemente da validade dos argumentos apresentados, mais um bom exemplo de uma preocupante tendência no Ocidente para a imposição do totalitarismo do politicamente correcto. Mecanismos semelhantes aplicam-se a um número crescente de áreas, sendo que o principal exemplo é hoje provavelmente a denúncia dos cientistas que são “negacionistas” em matéria de aquecimento global antropogénico.

A nível da blogosfera, recordei-me das polémicas geradas em torno de um texto da Patrícia Lança sobre os factores de risco associados ao sexo anal e de um texto do João Miranda sobre a exclusão de homossexuais da lista de dadores de sangue. Em ambos os casos, a maioria das reacções adversas pautou-se, não pela contestação racional, mas por ataques emocionais e que denotam essencialmente obscurantismo, cegueira ideológica e a vontade de silenciar a todo o custo a outra parte. Não me parece um procedimento nada saudável. Em cada uma das situações, recolhi dados sobre os argumentos invocados e ponderei escrever sobre os respectivos temas, mas acabei por não o fazer, em parte por falta de tempo e em parte por ter constatado que o problema central para a maior parte dos críticos não era a veracidade dos argumentos e factos apresentados (algo que seria susceptível de discussão racional) mas o próprio facto de esses argumentos e factos serem apresentados. E, face a isto, nada do que se possa dizer sobre as questões de fundo em si mesmas fará diferença.

No fundo, trata-se da ambição de sujeitar a ciência ao controlo ideológico do politicamente correcto. Não faltam na blogosfera (essencialmente à esquerda, e com predomínio da extrema-esquerda, mas não só) expoentes deste absoluto desprezo pela procura da verdade, sendo que a mais franca e inequívoca descrição da aplicação desta abordagem que li até agora num blogue é da autoria de Miguel Vale de Almeida:

Quanto à ideologia, é assim mesmo: estamos numa “guerra” por significados, valores, direitos. Por que carga de água haveríamos de desejar um conhecimento absolutamente neutro sobre a diferença sexual, a não ser no que diz respeito ao “mecanismo”, de modo a melhor tratar doenças?

Mais claro do que isto, seria (quase) impossível.

Leitura complementar: Quando a verdade não interessa; O síndrome do Professor Jubilado.

4 Comentários »

  1. Basta fazermos o exercício, muito simples, de imaginar o que teria acontecido se o Prof. Watson tivesse dito que os brancos eram comprovadamente menos inteligentes do que os negros… Ou se a Patrícia Lança tivesse louvado uma determinada prática sexual, ou se o blasfemo Miranda tivesse frisado a importância de haver homossexuais com fartura entre os dadores de sangue. Os louvores, os rasgados elogios que teriam surgido de todo o lado, até, talvez, dos mais insuspeitos!

    Comentário por Bloody Mary — Outubro 22, 2007 @ 10:26 am

  2. A credibilidade da neutralidade ideológica dos mencionados é tanta que mudei logo de opinião sobre tudo e mais alguma coisa…

    Comentário por Pedro Fontela — Outubro 22, 2007 @ 11:21 am

  3. Sobre este post:

    http://denaturanaturans.blogspot.com/2007/10/ironia-da-luta-pela-sobrevivncia.html

    Escrevi isto:

    «Uma análise que me parece demasiado “puritana”. De facto muitos cientistas famosos, para não falar de artistas, usam o seu prestígio alcançado com mérito numa área, para fazer passar opiniões sem grandes méritos às quais estão apegados. Russel, Chomsky, Picasso, agora o Dawkins, são exemplos claros. O que os afasta de Watson é que estes tentam, através do seu prestígio, fazer propaganda a ideias que pertencem, nas devidas épocas, ao arco do politicamente correcto. E não chegam a colocar o seu prestígio em risco, bem pelo contrário. Em geral vão sendo reconhecidos como génios precisamente por estarem no arco do politicamente correcto, quando na verdade são quase sempre medianos na sua verdadeira área de especialidade.

    Com Watson é o oposto, é o seu prestígio que ficou em risco. Parece-me ser mais um caso de ter os filtros sociais um pouco desajustados. A maior parte de nós tem ideias politicamente incorrectas mas só as transmite em certo círculos. Não é propriamente uma questão de hipocrisia mas de bom senso.

    Contudo, isto levanta um terceiro ponto mais delicado. É compreensível que Watson receba uma censura social, já que se todos agissem como ele a vida em sociedade seria impossível. Mas, o que dizer da censura “científica”? Não sei se está a ver, mas o problema que levantou também se aplica a quem agora censura Watson, utilizando o prestígio científico, mas apenas para fazer valer opiniões que à ciência nada devem. Parece-me ser uma questão nada fácil e nem sei se é possível dar-lhe uma resposta satisfatória.

    Por um lado, corre-se o risco da ciência ficar apenas ao serviço do politicamente correcto e perder para todo o sempre o objectivo de se aproximar da verdade. Mas a ciência que perde todas as ligações com a ética e a moral é também um risco tremendo. Um equilíbrio difícil.»

    Comentário por Mário — Outubro 22, 2007 @ 2:38 pm

  4. [...] Vale de Almeida, mais uma vez, não desilude e assume a vanguarda num assunto que é compreensivelmente incómodo para a agenda [...]

    Pingback por O Insurgente » Blog Archive » O avanço da agenda LGBT (2) — Novembro 8, 2007 @ 2:00 am

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