1. Vamos supor uma série de experiências em que um dado viciado é lançado n vezes (com um valor de n suficientemente elevado, digamos igual a 100). Da análise das 10 amostras passadas obteve-se a seguinte distribuição:
- 10% das vezes sai 1 no lançamento
- 10% das vezes sai 2
- 10% das vezes sai 3
- 20% das vezes sai 4
- 20% das vezes sai 5
- 30% das vezes sai 6
Concluindo-se que, em média, a soma dos 100 lançamentos de cada amostra é 420.
Suponhamos que uma qualquer pessoa tendo acesso à anterior informação, retira ao acaso um valor da última amostra e verifica que é “2″. Ou seja, num lançamento expecífico da última amostra o valor saído foi 2. Será aquela informação relevante para a constituição de expectativas futuras? Não. O valor esperado de futuras amostras continua a ser 420.
2. Imaginemos que uma semana antes da operação ser tornada pública, uma percentagem suficientemente grande de agentes de um mercado (digamos, 20%) tomam conhecimento de que irá haver uma OPA sobre uma empresa cotada com 100% de probabilidades de sucesso (utilizo 100% só por simplificação, o raciocínio seria válido com qualquer outra expectativa de sucesso; também por simplificação consideremos que a taxa de juro do activo sem risco é 0%) em que o valor proposto pelo oferente é superior ao preço actual.
Qual o valor esperado das acções em t-1, em que t é a data do anúncio público da oferta? Será de esperar que, se os 20% tiverem suficiente liquidez, o valor das acções em t-1 seja igual ao valor da oferta.
Em mercados com altos níveis de liquidez e com graves problemas de inside trading é comum o valor das acções de empresas prestes a ser opadas subir inexplicavelmente antes das ofertas serem tornadas públicas. É a forma de os agentes com informação privilegiada partilhar involuntariamente essa informação com o mercado.
(na imagem, a evolução do valor das acções do BCP desde a tomada de conhecimento do perdão de dívida ao filho de Jardim Gonçalves)

Hoje estão a subir 3,17%. Watch out.
Comentário por Helder — Outubro 18, 2007 @ 9:26 am
“É a forma de os agentes com informação privilegiada partilhar involuntariamente essa informação com o mercado.”
Muito interessante, muito interessante. Ainda ontem escrevi um comentário ao ´post´ do AAA em que dizia que este tipo de raciocínio é comum, implícita ou explicitamente, tendo sido prontamente desmentido pelo João Miranda. Hoje vinha aqui à procura de posts antigos sobre o assunto e não foi preciso. Apanho logo este post fresquinho.
Comentário por LA-C — Outubro 18, 2007 @ 9:39 am
Já agora, transcrevo a parte relevante do meu comentário sobre este assunto
“Os neoclássicos que se dedicam a estes assuntos, já concluiram que:
(1) se apenas houvesse dois agentes no mercado, um com mais informação do que outro, que então os preços revelam ao menos informado a informação do mais informado.
(2) Partiram-se todos quando tentaram generalizar os resultados para 3 agentes, e
(3) nem lhes passa pela cabeça generalizar isso para um mercado com múltiplos agentes com múltiplos níveis de informação e de “inside information”.”
Repare-se que o raciocínio to Carlos é equivalente a assumir que apenas existem dois tipos de agentes no mercado, pelo que cai no modelo neoclássico (1).
Comentário por LA-C — Outubro 18, 2007 @ 9:47 am
“expecífico”?!?!
Comentário por Tarzan — Outubro 18, 2007 @ 9:49 am
LAC, talvez a escolha que fiz das palavras nao tenha sido a melhor. O que eu quero dizer neste caso e’ que o preco de mercado incorpora os efeitos da informacao privilegiada. Ou seja, os agentes com informacao privilegiada nao revelam a informacao em si ao mercado, mas o impacto que essa informacao tera no preco.
Em relacao a isso, subscrevo o que diz o Joao Miranda:
“A conversão de informação em preços é um processo irreversível pelo que não é possível recuperar a informação dos preços.”
Alem disso, repara nas ressalvas colocadas: o numero de agentes com informacao privilegiada tera que ser suficientemente grande ou representativo para que a informacao seja incorporada no preco. Por exemplo, eu se soubesse hoje a que o BPI ira OPAr o BCP com um premio de 40%, com as minhas parcas poupancas nao poderia comprar muitas accoes, e dificilmente esta minha informacao se iria incorporar no preco da accao. Pelo contrario, se este tipo de informacao chegasse aos grandes private bankers, provavelmente amanha o preco da accao estaria proximo do valor da OPA.
Estarei errado?
Comentário por Carlos G. Pinto — Outubro 18, 2007 @ 9:58 am
Posto de outro modo, existe algum motivo pelo qual um agente que tome conhecimento que o BPI ira pagar 4 euros por accao do BCP no prazo de uma semana, e tenha liquidez disponivel, pare de comprar accoes do BCP antes de elas atingirem os 4euros?
Comentário por Carlos G. Pinto — Outubro 18, 2007 @ 10:05 am
Então vamos ver o seguinte paradoxo.
O qeu são “mercados com graves problemas de insider trading”?
Precisamente aqueles onde a informação vai sendo incorporada nas cotações transmitindo informa~çao a todos os agentes.
Ou seja, um onde muita gente não saberá porque raio as cotações estarão a subir mas onde a sua mera observação lhe permitirá concluir que algo estará para acontecer.
Um mercado com “graves problemas” é um com melhor informação para todos.
Comentário por CN — Outubro 18, 2007 @ 10:42 am
assim, quanto “mais grave fôr o problema” mais cedo as cotações começam a subir, em vez de subirem apenas no dia anterior (o que se passará num mercado com alguns problemas mas não com tão graves problemas).
Pessaolmente o “insider trading” de froma algma constitui um crime e quanto muito é um assunto do foro civil, por quebra de contrato com regras impostas pela empresa.
Ou sentão, a bolsa onde são admitidas as acções entende impor regras de “insider information”, e se estas forem quebradas será mais uma vez um assunto de litigio civil.
Nunca um crime.
Totalmente contra a minha noção de direito, é a Martha Stewart estar presa quando nem sequer uma pessoa se queixou que tinha sido prejudicada ou pôs uma acção contra ela. E se o fizesse deveria ser um litigio civil e nunca criminal.
Comentário por CN — Outubro 18, 2007 @ 10:47 am
[...] quero melindrar o Carlos Guimarães Pinto, mas isto é um erro bastante grave. O Carlos confunde média populacional com média amostral. O [...]
Pingback por blogue atlântico » Blog Archive » População e Amostra — Outubro 18, 2007 @ 12:48 pm
“Ou seja, um onde muita gente não saberá porque raio as cotações estarão a subir mas onde a sua mera observação lhe permitirá concluir que algo estará para acontecer.”
Precisamente! Por isso é que na resposta ao comentário do João Miranda frisei que a verdade está unicamente no preço!
Uma empresa sobre a qual saia uma ou duas ou três más notícias mas os preços continuem a subir, é uma empresa que eu quero comprar, não é uma empresa que eu quero vender!
Quando sai a notícia eu não vendo ou compro em função da notícia ser má ou boa, eu olho para o preço e depois decido… Porque o preço é que me diz o que se está verdadeiramente a passar!
Comentário por Ricardo Sebastião — Outubro 18, 2007 @ 4:13 pm
“Porque o preço é que me diz o que se está verdadeiramente a passar!”
Joao Miranda, ves como eu tinha razao ao dizer que muita gente tem este raciocinio? Num so’ dia tivemos um insurgente e agora um comentador.
Comentário por LA-C — Outubro 18, 2007 @ 5:37 pm
LA-C, le os comentarios que coloquei acima.
Comentário por Carlos G. Pinto — Outubro 18, 2007 @ 7:13 pm
Eu li, mas não me fizeram mudar de opinião em relação aos pressopostos implícitos no teui raciocínio. Não leves a mal, até orque sou eu que posso estar a interpretarç-te mal, claro, mas neste momento estou ocupado com um artigo e não tenho cabeça para ir rever artigos de Microeconomia dos mercados financeiros.
Comentário por LA-C — Outubro 18, 2007 @ 7:43 pm
pressopostos = pressupostos
Comentário por LA-C — Outubro 18, 2007 @ 7:43 pm
Afinal a nova informação nunca devia sequer ter sido informada:
“BCP avança com uma queixa-crime contra incertos por violação do sigilo bancário”
Comentário por CN — Outubro 19, 2007 @ 10:41 am
Que é como quem diz.
Se o BCP desce se calhar é porque o BCP é susceptivel de quebra de sigilo e não por causa do “caso do filho”.
Comentário por CN — Outubro 19, 2007 @ 10:42 am