O Insurgente

Setembro 26, 2007

Somos uma geração aprisionada

Arquivado como: Comentário, Economia, Política, Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:47 am

O comentário do Filipe Moura a este meu ‘post’ é interessante porque se baseia num equívoco generalizado, que enganou muitas pessoas, inclusive algumas que me são próximas. Na verdade, ter casa própria não é um investimento. Ter casa própria (a não ser para quem compra uma muito cara que pode sempre vender e mudar-se para algo mais pequeno e em conta) é uma aberração. Um péssimo negócio. Um negócio que nos aprisiona duplamente. Vejamos:

Aprisiona-nos porque representa, em média, 60 a 70% dos rendimentos dos portugueses. Em média, trabalhamos para pagar uma casa da qual não nos podemos soltar, pois se o fizermos teremos de comprar outra para morar. Estamos presos. Aprisiona-nos também porque nos dificulta qualquer mudança. Imaginemos alguém que vive em Lisboa, trabalha na capital e arranja um belíssimo emprego no Porto. Quanto tempo leva a conseguir comprar uma casa nova e a vender a actual? Tem de procurar comprador, esperar que este se financie junto de um banco, têm de se fazer avaliações ao imóvel, requerer registos provisórios, pagar impostos, marcar uma escritura no cartório e aguardar que não tenha sido desmazelado e guarde consigo as plantas da casa e a licença de habitação. Burocracias de quem é proprietário, não de um imóvel mas, falando mal e depressa, de uma dívida.

Tudo seria diferente com uma casa arrendada que se pode largar e sair à procura de outra.

É este o problema que temos hoje. Somos uma geração aprisionada. Estamos presos. Atolados num lamaçal de regulamentação que os governos pensam poder resolver, qual passe de mágica, com mais regulamentação que visa explicar e simplificar a regulamentação anterior. A continuar desta forma, com a crise do crédito à porta de um país como o nosso, endividado até à medula, e a geração aprisionada vai começar a gritar por socorro.

11 Comentários »

  1. Ter casa poderia ser considerado um investimento se tivessemos um mercado imobiliario a serio. Se houvesse agilidade no processo de compra e venda, se a fiscalidade fosse reduzida, se o processo de titularizacao da propriedade por privados fosse mais facil…

    Comentário por Carlos G. Pinto — Setembro 26, 2007 @ 11:59 am

  2. Este debate é interessante, sem dúvida, André, mas só vou ter tempo de te responder para a semana, provavelmente.

    Comentário por Filipe Moura — Setembro 26, 2007 @ 1:13 pm

  3. E mentalmente fica-se mais conservador, as dívidas fazem temer a mudança, o risco e o arriscar.

    Comentário por CCz — Setembro 26, 2007 @ 1:32 pm

  4. Filipe Moura? Meu professor de Transportes do IST?

    De qualquer das formas o incentivo à habitação própria generalizado em Portugal lembra aquele efectuado em Singapura ou Hong Kong onde essas medidas de facto fazem sentido, para fixar a população.
    Um país com as características de Portugal esse incentivo é contra-producente já que acentua as desigualdades entre litoral e interior ao impedir a efectiva deslocação da população.

    Comentário por João — Setembro 26, 2007 @ 3:28 pm

  5. Isso já deu muita confusão, João. Sou do IST, mas não sou esse Filipe Moura…

    Comentário por Filipe Moura — Setembro 26, 2007 @ 4:33 pm

  6. [...] Abrantes Amaral, n’ O Insurgente. Ler também um texto inicial de Henrique Raposo sobre o [...]

    Pingback por blogue atlântico » Blog Archive » Uma geração na prisão do Estado — Setembro 26, 2007 @ 4:52 pm

  7. Absolutamente de acordo. Isto é uma velha discussão que tenho com pessoas conhecidas. Sempre raciocinei do mesmo modo e nunca quis essa “prisão”.

    Comentário por Luís Aguiar Santos — Setembro 26, 2007 @ 6:41 pm

  8. É que nem chega a ser discussão, é uma questão de matemática mesmo.

    Comentário por Anonimo — Setembro 27, 2007 @ 12:41 am

  9. “É este o problema que temos hoje. Somos uma geração aprisionada. Estamos presos.”

    Caro André

    Isso é tudo verdade, mas prisão, prisão mesmo,era no meu tempo com as taxas de juro a 19.5%.
    Ora agora, com as taxas como estão, com financiamentos a 100%, adiamento das amortizações a 3 anos, não havendo casas para arrendar, ou havendo a valores muito superiores à prestação do banco, a prisão é mais psicológica que outra coisa…
    .

    Comentário por Mentat — Setembro 27, 2007 @ 12:45 am

  10. Como diz e muito bem o Carlos Pinto, o problema é das burocracias. Porque quanto mais gente tiver casa própria melhor, isso é certamente mais positivo do que só meia dúzia de gente ser proprietária de imóveis.

    Comentário por Pedro Sá — Setembro 27, 2007 @ 9:30 am

  11. Caro André,

    Comentário aqui:

    http://small-brother.blogspot.com/2007/09/minha-casinha-3-e-gerao-aprisionada.html

    Abraço,

    Ricardo

    Comentário por Ricardo Francisco — Setembro 27, 2007 @ 4:09 pm

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