Na última semana, os órgãos de comunicação nacionais voltaram a comentar a subida do preço do barril de petróleo acima dos 80 dólares. “Recorde histórico”, dizem. Primeiro erro! A inflação “desvaloriza” qualquer comparação entre preços correntes de longos horizontes temporais. Não existe qualquer recorde.
Segundo erro: o barril de petróleo de referência para o mercado europeu é o Brent. O preço deste continua abaixo dos 80 dólares.
E, para finalizar, um facto que escapa aos profissionais da comunicação: a moeda oficial em Portugal é o euro, não o dólar! Comentar a variação do preço do barril de petróleo sem ter em conta a volatilidade da taxa de câmbio euro/dólar é, por isso, um erro grosseiro.
Um pequeno exemplo:
A 22 de Julho de 2006 o barril de petróleo Brent atingiu 76,13 dólares. Considerando a taxa de câmbio euro/dólar desse dia (1,2641) o barril custava 60,22 euros. Hoje, cerca dum ano e dois meses depois, o barril de petróleo Brent fechou a 78,25 dólares mas o euro/dólar atingiu novo máximo: 1,41235. Sendo assim, na zona euro o custo do barril de petróleo é 4,82 euros inferior (55,40 euros).
Apresenta-se abaixo gráfico com a evolução do preço, em euros, do barril de petróleo Brent (clicar na imagem para aumentar):
Fontes: DOE e x-rates.com.
São pequenos “petro-equívicos”…
Comentário por Marco Gomes — Setembro 26, 2007 @ 5:55 pm
Excelente explicação.
Comentário por André Azevedo Alves — Setembro 26, 2007 @ 5:58 pm
Bz,
Bem analisado. Contudo, dado que o ritmo de valorização do preço do crude é exponencialmente superior ao ritmo de desvalorização do dólar em relação ao euro, em breve teremos o brent a máximos históricos.
Com a agravante de que, enquanto se espera que o petróleo continue a sua subida galopante, no caso do dólar estamos a aproximar-nos de mínimos preocupantes face ao euro e, não tarda nada, o FED vai dar uma lição aos especuladores. Conclusão: é mais provável que o Brent comece a valorizar em flecha em alternativa ao actual ziguezague com tendência de alta.
Quanto ao dólar, aquela ideia maluca de que a sua desvalorização é boa para a economia norte-americana só vale até certo ponto. Estamos, provavelmente, próximos do ponto a partir do qual uma desvalorização adicional do dólar conduzirá ao apocalipse financeiro. Se o dólar quebra 1,4500 é que vão ser elas…e o Bernanke sabe disso.
Portanto, caro BZ, infelizmente, os factos irão vindicar a posição da imprensa financeira.
Comentário por Ricardo Arroja — Setembro 26, 2007 @ 6:35 pm
“Se o dólar quebra 1,4500 é que vão ser elas.”
Ricardo
Tenho uma certa dificuldade em acompanhar estes raciocínios típicos de análise técnica. A 1.4499 não acontece nada. A 0,0001 acima, é o apocalipse. Não se arranja nada no meio termo?
Comentário por jcd — Setembro 26, 2007 @ 6:56 pm
BZ.
Experimenta ir 30 anos atrás nesse raciocínio. Encontram-se outros picos ainda mais altos.
Comentário por jcd — Setembro 26, 2007 @ 7:00 pm
Ricardo Arroja,
A evolução do preço do barril de petróleo dependerá, também, da provável crise da economia americana. Ou seja, se nos EUA a redução da procura for significativa, o preço do barril sofrerá…
Quanto à desvalorização do dólar, o FED não será o único interveniente no mercado. Alguns “especuladores” (bancos centrais da China e Japão) pcomeçam a pensar sobre o que fazer às suas avultadas reservas em dólares. Se optam por comprar ouro, o FED terá pouca margem de manobra para suster a queda do dólar.
Comentário por BZ — Setembro 26, 2007 @ 7:16 pm
jcd,
O nível de 1,4500 é uma referência…pode ser uns ticks acima ou abaixo. E não tem nada a ver com análise técnica - matéria na qual não sou expert nem acredito especialmente.
O nível de 1,4500 tem a ver com análise quantitativa, nomeadamente na extrapolação da relação marco/dólar para euro/dólar. O máximo histórico do marco face ao dólar foi em 1995 a 0,7432 (ou 1,3455 como a relação inversa antigamente convencionada para o cross marco/dólar). Neste momento, o marco está a 0,7222 (ou 1,3847 na relação inversa). Portanto, o marco está a 2,8% do antigo máximo face ao dólar.
Portanto, se assumirmos uma relação de 1 para 1 entre marco e euro (premissa mais do que razoável), e extrapolarmos a análise para o dólar concluimos que, efectivamente, o máximo histórico do euro/dólar pode muito bem ser 1,4519 (cross actual de 1,4124 * 1,028). E este é um limite que, na minha opinião, o FED não deveria estar disposto a ceder.
Comentário por Ricardo Arroja — Setembro 26, 2007 @ 7:25 pm
“Experimenta ir 30 anos atrás nesse raciocínio. Encontram-se outros picos ainda mais altos.”
jcd, para o preço do barril de petróleo em dólares tal análise foi possível.
Nota: o Financial Trend Forecaster disponibiliza o gráfico com a evolução dos preços nominais e reais, até Janeiro de 2007. Nesta data, para se atingir o recorde histórico, o barril de petróleo teria de ultrapassar os 100 dólares.
Comentário por BZ — Setembro 26, 2007 @ 7:29 pm
Ricardo Arroja:
“se assumirmos uma relação de 1 para 1 entre marco e euro (premissa mais do que razoável), e extrapolarmos a análise para o dólar concluimos que, efectivamente, o máximo histórico do euro/dólar pode muito bem ser 1,4519″
Penso que o euro, ao representar a economia de 13 países, terá uma relação com o dólar consideravelmente diferente do marco em 1995.
Comentário por BZ — Setembro 26, 2007 @ 7:38 pm
BZ,
Não concordo. Em ambos os pontos.
1) Petróleo: o problema está mais na escassez da oferta do que na oscilação da procura. Na exploração petrolífera, a oferta é relativamente inelástica. É preciso descobrir os poços, explorá-los, refinar o petróleo e trazê-lo para o mercado final. Um processo que pode durar anos e que requer investimentos de dezenas de milhões - já para não falar no facto de ser raro encontrar bons poços de petróleo. Portanto, o factor que mais influenciará o preço não é a procura. É, sim, a oferta. E a verdade é que há pouca oferta.
Além disso, os poços de petróleo arábes estão a secar (aliás, não é por acaso que a última auditoria independente na Arábia Saudita ocorreu nos anos 70. Desde então, o mundo desenvolvido faz depender as suas estatísticas daquilo que nos dizem as autoridades sauditas!).
E quanto às energias alternativas, estas ainda não descolaram e muitas não substituem o petróleo. É o caso do biodiesel e do bioethanol que apenas reduzem o consumo de combustível fóssil. A única alternativa que, com algum impacto, permitiria reduzir o consumo de combustível fóssil é a energia nuclear.
2) Dólar: os países que mais reservas monetárias possuem em stock, há muito que optaram por diversificar as reservas denominadas em dólares para reservas denominadas em euro e francos suíços. Esse é um processo que não é de agora.
Quanto ao ouro, não se entusiasme excessivamente. Trata-se de um mercado com reduzida liquidez (basta ver o turnover de transacções nos futuros de ouro cotados em Nova Iorque) e pouco transparente. É um mercado que facilmente é manipulado por bancos de investimento e até pelos próprios bancos centrais. Não porque estejam a fazer algo de mal, mas simplesmente pelo facto de ordens de compra e venda de baixa dimensão conseguirem ter impacto na oscilação do preço.
E, ainda em relação ao ouro, não há lógica racional associada à sua detenção em carteira. É que, no mundo pós Bretton Woods, o ouro é um objecto bonito, místico, mas sem utilidade prática. Se Bretton Woods for reeditada, ou seja, associar o valor das divisas a um qualquer activo real, provavelmente, sê-lo-á com padrão “crude oil”. O que, ironicamente, até poderia dar algum suporte ao dólar. Afinal, a principal referência no mercado de petróleo é o petróleo cotado em Nova Iorque (e não o Brent cotado em Londres). E, salvo erro, os Estados Unidos é o país com maiores stocks de petróleo - guardados na célebre Strategic Petroleum Reserve. Aliás, não deixa de ser notável que o ex-presidente do FED, Alan Greenspan, tenha sido tão franco ao assumir que o Iraque tem tudo a ver com petróleo. Será que ele já está a pensar no padrão “ouro negro”?
Concluindo, em matéria de preço de combustível, estamos metidos num sarilho. Que se vai traduzir em (mais) inflação, em taxas de juro mais altas, e num enormíssimo sarilho nas contas/dívidas dos particulares.
Comentário por Ricardo Arroja — Setembro 26, 2007 @ 7:55 pm
“Penso que o euro, ao representar a economia de 13 países, terá uma relação com o dólar consideravelmente diferente do marco em 1995.”
BZ,
Talvez - daí o meu termo “extrapolação”. Vício profissional! É que eu, como especulador profissional, tenho de tomar decisões com base em informação incompleta.
Mas não se esqueça que, antes do euro, o marco é que era a divisa de referência na Europa. E o Banco Central Europeu foi construído à imagem do Bundesbank. Portanto, muitos especuladores profissionais estarão a pensar da mesma forma que eu: assumem que o futuro não será muito diferente do passado. Nos mercados financeiros, é o único método que conduz à decisão. A alternativa é a paralisia. Ou então um golpe de sorte!
Comentário por Ricardo Arroja — Setembro 26, 2007 @ 8:17 pm
A mania de fazer contas! Irritam-me essas piquinhices…
Comentário por antonio — Setembro 27, 2007 @ 11:13 pm
[...] Até a própria ANAREC começa a fazer as contas em euros. Finalmente! [...]
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