Mais um comentário de Ricardo Arroja ao post Subprime Lessons:
Em relação ao artigo do Michael Lewis, totalmente de acordo no que diz respeito à origem da crise: o problema existe porque há defaults, e não devido aos especuladores profissionais que andam a investir nas respectivas titularizações!
O meu comentário tem mais a ver com a reacção típica de muitos especuladores profissionais (de resto, uma classe de que eu tb faço parte!)…quando ganham é porque foram bestiais, mas quando perdem poucos são aqueles que aceitam que perderam porque foram umas bestas! Sabe, é que nesta minha profissão, passar de bestial a besta e vice-versa é um instante porque aqui os números (ie, a performance individual de cada gestor) não mentem.
Eu atirei-me ao Michael Lewis, e aliás reitero tudo o que escrevi, porque enquanto o mercado de titularizações de crédito hipotecária esteve a dar, e provavelmente ele estava exposto a este tipo de activos, ninguém se queixou:
1) Os especuladores profissionais (ie: gestores de hedge fund estavam em geral longos nas titularizações e, portanto, a beneficiar de cotações OTC favoráveis)
2) Os bancos estavam protegidos - longos na exposição ao mercado de crédito hipotecário e curtos nas respectivas titularizações onde tinham como contraparte a comunidade de “hedge funds” (uma forma inteligente de transferir o risco associado ao sector).Quando a coisa começa a correr para o torto, a generalidade dos bancos ficou apertada, mas quem ficou verdadeiramente enrascado foram os Hedge Funds que, ironicamente, não estavam “hedged”!! Portanto, problema deles, fizeram uma má aposta, em termos direccionais e em termos formais (repito, os “estouros” são sempre em OTC), por isso que aguentem agora com as perdas. Dói. Custa. Mas a culpa é apenas do operador, não da família que entrou em default. Sobretudo quando ao operador o pior que pode acontecer é perder performance e clientes, ao passo que a família vai perder a casa. E como se diz no jargão financeiro, “never bet the house”.
http://neoliberalismo.blogspot.com/2007/08/crise-do-crdito-verdadeira-histria.html
http://neoliberalismo.blogspot.com/2007/09/o-subprime-portugus.html
Comentário por BaD — Setembro 9, 2007 @ 2:32 pm
A crise existe porque os defaults verificados são superiores ao pricing efectuado na compra das carteiras.
O pricing foi subavaliado porque é o resultado de existir “crédito fácil”, que tende a subavaliar a poupança existente e a sobre-avaliar o investimento.
Comentário por CN — Setembro 10, 2007 @ 10:22 am
“Hedge Funds que, ironicamente, não estavam “hedged”!!
Porque teriam de o estar? o termo aplica-se g´néricamente a todo o tipo de investimento não clássico.
A “compra” de carteiras de crédito baseia-se em pagar um preço actual menor que o resultado futuro da colecta.
Comentário por CN — Setembro 10, 2007 @ 10:25 am
“Hedge Funds que, ironicamente, não estavam “hedged”!!
Porque teriam de o estar? o termo aplica-se g´néricamente a todo o tipo de investimento não clássico.
CN,
Tem razão. A generalidade dos “Hedge Funds” de hoje nada têm a ver com a definição popularizada por Alfred Winslow nos anos 50. Na versão original, o “hedge fund” tinha exposição nula à direcção do mercado, ou seja, a carteira longa (especular na alta do activo) era igual à carteira curta (especular na baixa do activo). Mais recentemente, passou a aceitar-se que os “hedge funds” possam ter algum nível de exposição direccional ao mercado (o normal é qualquer coisa entre 40% e 200% enviesado ao lado longo da carteira). Até aqui nada de errado.
O problema são aqueles que se afirmam “hedge funds” mas que, utilizando a expressão de Barton Biggs em “Hedgehogging”, mais não são do que “leveraged long or leveraged short only funds”. E é aqui reside o problema de comunicação. Ser “long only” ou “short only” não tem mal nenhum, desde que se o afirme. Aliás, até há uns meses atrás, era a única forma de produzir resultados excepcionais em face da baixa volatilidade da maioria dos activos. No entanto, ser “long only” ou “short only” e afirmar-se “hedge fund” é que não pode ser. Porque, tudo o resto igual, a forma como a rentabilidade é obtida é totalmente distinta.
Estas questões de comunicação são tantos mais relevantes quanto maior a maturidade do meio financeiro. Nos Estados Unidos, a diferenciação entre “long only”, “short only” ou “hedge fund” é importante. Infelizmente, muitos dos supostos “hedge funds” que se dedicavam a investir nas titularizações de subprime também falharam na comunicação do seu ADN.
Comentário por Ricardo Arroja — Setembro 10, 2007 @ 3:00 pm
[...] Comentário de Ricardo Arroja ao post Subprime Lessons (3): A generalidade dos “Hedge Funds” de hoje nada têm a ver com a definição popularizada por Alfred Winslow nos anos 50. Na versão original, o “hedge fund” tinha exposição nula à direcção do mercado, ou seja, a carteira longa (especular na alta do activo) era igual à carteira curta (especular na baixa do activo). Mais recentemente, passou a aceitar-se que os “hedge funds” possam ter algum nível de exposição direccional ao mercado (o normal é qualquer coisa entre 40% e 200% enviesado ao lado longo da carteira). Até aqui nada de errado. [...]
Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Hedge Funds vs. “leveraged long or leveraged short only funds” — Setembro 12, 2007 @ 2:01 am