Em resposta ao meu post abaixo sobre a presença das FARC na festa do Avante e a complacência do centro-direita português com o facto, um tal de João, com pinta de jotinha, cola um comentário já colocado em muitos blogs em que tenta encobrir a situação. Entre os vários motivos apresentados, eu gosto especialmente de dois:
4. Alguém me explica como é que uma organização fundada em 1930 (o PCC) pode ser «o braço político» duma outra organização refundada em 1967 (FARC)?
Alguém lhe explique…
5. Do ponto de vista de um determinado período histórico, quando muito, poder-se-ia dizer o contrário. Já que o PCC, nos anos 60 do século passado, destacou alguns dos seus quadros de direcção para dar conteúdo político às FARC.
O que é o contrário de o PCC ser o braço político das FARC? As Farc é que são o braço político do PCC? O PCC não é o braço político das FARC mas as FARC são o braço armado do PCC? Ficam as dúvidas.
De resto, basta visitar as páginas na internet de ambos os movimentos, PCC e FARC, para entender as relações entre ambos. E sobre a sua presença na festa do Avante de 2006, este comunicado das FARC fala por si.
Há uns anos atrás um dirigente da JCP local tentava convencer colegas a aderir ao núcleo com o argumento politicamente relevante de que “nós temos as gajas mais liberais” (que não neo-liberais). Com critérios de recrutamento tão bons como este, não se pode esperar que a nova geração de jotas consiga branquear tão bem a actividade do PCP como os seus antecessores. Felizmente para nós.
Parece-me que esta questão levantada pela direita porta-estandarte da “legalilade internacional” ameaça tomar proporções circenses.
As FARC são, como sabemos, classificadas como organização terrorista pelos E.U.A. e pela U.E.. O que não significa, teoricamente, que seja um movimento necessariamente terrorista. Logo é, a meu ver, aceitável que o PCP, dada a sua agenda anti-americanista e anti-europeísta, não alinhe por essa bitola. Com razão perguntam-nos “Se os EUA os classificam de terroristas seremos todos obrigados a dar-lhes razão?”.
A questão da União Europeia é mais complexa, até porque o próprio PCP tem assento no Parlamento Europeu. Parto do principio que tenha havido uma discussão ao nível daquele órgão nesta matéria das FARC. Desconheço se realmente a houve mas, a ter havido, é fácil de adivinhar a posição do PCP. Desconheço também a legislação europeia neste assunto, mas suponho que o PCP não esteja a cometer ilegalidade nenhuma. Caso contrário já teria sido, pelo menos, advertido.
Partindo agora para o ataque, pergunto aos autores das dezenas de posts anti-PCP se concordam com o facto de haver um estado-membro da sacro-santa UE que persegue e silencia automaticamente a oposição de esquerda, um estado perfeitamente medieval na sua concepção ideológica que designa de “anti-patriota” quem defende que seja leccionada nas escolas daquele país a Teoria Darwinista da evolução, substituindo assim a Teoria da Criação nos currículos escolares; um estado governado por homens que afirmam sem pudor algum que vão desrespeitar uma norma da UE e destruir uma reserva natural para dar lugar a uma auto-estrada.
Posso também continuar a atacar e perguntar porque razão havia o PCP ou qualquer outro partido de acatar uma suposta “ordem” de um país que desrespeita sistematicamente normas e convenções internacionais e que cospe no Direito Internacional sem problema algum, como no caso dos prisioneiros de Guantanamo; um país que propõe que todos os seus cidadãos, sejam eles civis ou militares, sejam impunes e imunes às leis do Direito Internacional ou que se recusa a ratificar o Protocolo de Quioto.
Mais ainda, Portugal é membro da OTAN, uma organização que financiou e fomentou organizações como a GLADIO ou a Loja P2 responsáveis por dezenas de mortes em Itália nas décadas de 70 e 80.
E porque razão havia o PCP de seguir a linha de pensamento do Governo Colombiano, esses sim os verdadeiros terroristas em todo este processo. Esses sim os verdadeiros narco-traficantes, os verdadeiros assassinos e raptores, os verdadeiros e maiores violadores dos Direitos Humanos?
O PCP, tal como todos os outros partidos, é livre de escolher quem quer que seja para seu “amigo”. Se os partidos à sua direita escolhem a Opus Dei, a Maçonaria ou a CIA não vejo onde esteja o problema em ter na sua lista de relações internacionais um movimento que, embora armado, tem objectivos idênticos aos do programa daquele partido.
Saudações
Comentário por Igor Marques — Setembro 3, 2007 @ 4:34 am
O Igor também entrou pelas “gajas liberais”, confesse lá.
Comentário por Carlos G. Pinto — Setembro 3, 2007 @ 7:01 am
Para arranjar tacho é que não foi. Isso posso garantir.
Comentário por Igor Marques — Setembro 3, 2007 @ 6:32 pm