Quem ontem acompanhou a noite eleitoral através da televisão francesa, sentiu o desejo de mudança que terá contagiado a França. Espero que sim. Tim King, cujos comentários acompanhei durante meses, fala de esperança. Fá-lo, porque os franceses se deparam hoje com uma incógnita: O que vai acontecer com Sarkozy no poder? Estamos no início de uma nova era, com as convulsões sociais inerentes a qualquer tentativa de mudança, ou ficará tudo na mesma? Em momentos de crise a incógnita é bem melhor que a certeza. Dito de outra forma: A capacidade de aceitar o desconhecido é a maior prova de que ainda se está vivo. Acho ser isto o que se chama de esperança. A França ainda mexe e os povos europeus esperam por ela.
Maio 7, 2007
2 Comentários »
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A França ainda mexe e bem. Vê-se pela taxa de participação eleitoral altíssima, pela audiência no debate presidencial que fez com aquele tenha sido um dos programas mais vistos de sempre em França, pelos comícios preenchidíssimos, etc. Foi enorme a festa pela vitória de Nicolas Sarkozy, como o teria sido também se Ségolène Royal tivesse ganho, o que demonstra a enorme mobilização em ambos os campos. Compare-se esta França (que se diz estar deprimida e em crise) com Portugal, e é uma diferença enorme.
Desde logo, o debate provou que o nível de debate político em França está noutra “galáxia”, por comparação com Portugal. Os nossos políticos não têm bagagem para um debate com aquela duração e abrangência de temas. Não têm a educação para se afrontarem sem insultos grosseiros. E acima de tudo, não há coragem em Portugal para apresentar um programa realista sem mentir ao eleitorado, mesmo que isso provoque anticorpos em muita gente, como fez Sarkozy.
A Alemanha está a ultrapassar a crise. A França fará o mesmo. A Grã-Bretanha vai passar ainda um mau bocado com a agonia trabalhista sob o “comando” de Gordon Brown, a fazer lembrar os últimos anos do governo de John Major. Entrará noutra era após a vitória quase certa de David Cameron nas próximas legislativas. Ou seja, os grandes potências europeias conseguem resolver os seus problemas, em democracia e com o actual sistema de partidos, que se conseguem sempre renovar.
E em Portugal? Vislumbra-se massa crítica para ultrapassar a crise? Por acaso o governo socialista deixará algum legado positivo? Os partidos dão mostras de vitalidade e renovação dos seus quadros? O eleitorado dá mostras de interesse e participação na vida política do seu país, como os franceses? Por acaso se viu o genuíno entusiasmo popular aquando das vitórias de Sócrates e Cavaco, como se viu ontem em França, demosntrando identificação entre eleitores eleitos? Não, não, não e não.
Só há verdadeiramente um “sick man” na UE, que é Portugal. A globalização obriga a Europa a “desemburrar”, e por consequência o fosso entre Portugal e a Europa desenvolvida aumentará ainda mais, porque não temos pedalada para aguentar o ritmo. Ou algo muda drásticamente em Portugal, ou será interrompida durante muito tempo a convergência de Portugal com os países desenvolvidos, que se iniciou a partir dos anos 60. Para Portugal, o séc. XXI arrisca-se a ser tão penoso quanto o séc. XIX…
Comentário por Lionheart — Maio 7, 2007 @ 2:45 pm
Boas análises,André e Lionheart.Gostei das vossas leituras sobre o que se passa em França(e no resto da Europa).
Comentário por Cristina Ribeiro — Maio 7, 2007 @ 3:02 pm