Enquanto alguém que conhece relativamente bem os Estados Unidos, tenho de admitir que não sou propriamente um grande fã dos americanos. Sabendo que apesar de tudo é injusto generalizar, não me parecem as pessoas mais simpáticas. Além de terem um jeitinho especial para elegerem políticos de quem é fácil fazer chacota. Mas a verdade é que isto podia ser dito de qualquer outra nacionalidade. Dá ou não vontade de rir, a imagem de Chirac a discursar na TV? A agitar a cabeça como um zé-sempre-em-pé a quem deram um piparote? Ou o sorriso de Topo Gigio de Zapatero? Para não falar das auto-caricaturas de Chavez ou Ahmadinejad… É sempre fácil desconsiderar ou desdenhar quem é diferente de nós. Para os portugueses até é fácil desconsiderarem-se ou desdenharem-se a si próprios…
No entanto, a parada de anti-americanismo sobranceiro, blasé e pseudo-intelectual que para aí vai está a começar a tirar-me um bocado do sério. Especialmente porque por mais defeitos que os americanos possam ter, a América simboliza - melhor do que qualquer outro país no mundo - algo demasiado importante para deixarmos casualmente ser manchado por uma populaça invejosa e mal-amada: a Liberdade. A América tem de especial aquilo que Margaret Thatcher identificou com grande clareza: Enquanto a Europa foi criada pela história, a América foi criada pela filosofia. A maior prova disso é a quantidade, aparentemente sem fim, de pessoas que querem ir para lá viver. E o argumento de que são os pobres a querer ir para lá para melhorar de vida peca por insuficiência. A América é um extraordinário chamariz de pessoas altamente qualificadas, cujas vidas nas suas terras de origem eram sobejamente confortáveis. O que atrai estas pessoas é uma vida mais livre e onde existem menos obstáculos para atingir os seus objectivos e ambições. Pobres, ricos ou remediados, têm em comum na sua emigração para a América uma coisa: the pursuit of happiness.
A pretensa inferioridade americana (relativamente à superior Europa, presume-se, como se mais uns séculos de história contribuíssem para a felicidade das pessoas) é normalmente afirmada através de críticas, observações e opiniões que têm tanto de cínicas como de erradas. Regularmente circulam por aí estudos que mostram o quanto menos cultos são os americanos. Ou experiências pessoais de quem ouviu esta ou aquela “barbaridade”. Sempre com exemplos bacocos tipo “pensam que Portugal é uma província de Espanha”, ou “não sabem que Lisboa é capital de Portugal”. A grande ironia nisto é que as pessoas que fazem estes comentários normalmente não têm a menor ideia de onde fica o Wyoming ou o Vermont, ou não fazem a mínima de quais são as capitais dos estados de Nova Iorque ou Nova Jérsia. Deveria bastar o desconforto e embaraço causados por meia dúzia de visualizações de programas como o “Um contra todos” ou “O elo mais fraco” para percebermos onde abundam ignorantes.
Outra acusação constante é uma suposta inferioridade da democracia americana. Há uns meses na TVI, Miguel Sousa Tavares brindou-nos com uma daquelas atoardas que lhe escapam de vez em quando: “A Turquia é mais democrática que muitos países ocidentais, nomeadamente os Estados Unidos.” Isto seguido de uns breves risinhos idiotas partilhados com o pivot do Jornal Nacional. É verdade que a América está longe de ser perfeita. Os seus políticos passaram a maior parte dos últimos 100 anos a minar o estado de liberdade e o benefício de um governo federal reduzido e com poderes limitados. Mas tomara nós ter a tradição americana de democracia liberal e liberdade de expressão, a efectiva separação de poderes, ou a independência e representatividade regional dos parlamentares. Quanto mais a Turquia. O Presidente tentou eleger a sua advogada para o Supremo Tribunal. O congresso não deixou, pois não? O executivo tentou impedir direitos de defesa e legitimar a tortura aos acusados em Guantánamo. O Supremo Tribunal não deixou, pois não? A maioria republicana tentou mudar o regimento interno do congresso para diminuir a influência da oposição. Foram alguns senadores entre a própria maioria que impediram isto, ou não?
“What’s so great about America” ; Dinesh D’Souza ; Regnery Publishing ; Washington 2002
édition française :
“Pourquoi il faut aimer l’Amérique” ; Dinesh D’Souza ; Grasset ; Paris 2004 ; Préface de Jean-François Revel
“A hostilidade para com o individualismo é um dos motivos do antiamericanismo formulado num modo surpreendentemente semelhante à esquerda e à extrema direita.”
Jean-François Revel
Comentário por Fernando S — Março 8, 2007 @ 11:27 pm
Excelente texto!
“A América tem de especial aquilo que Margaret Thatcher identificou com grande clareza: Enquanto a Europa foi criada pela história, a América foi criada pela filosofia.”
Thatcher foi certeiríssima. Para o bem e para o mal é nesta questão que repousam grande parte dos vícios e das virtudes da América. Nem sempre nós, os europeus bem pensantes, compreendemos o sentido filosófico da América, primeira república moderna, inauguradora de um novo futuro para a humanidade. A eles por vezes escapa a “finesse” de um sentido da história que não se aprende, antes de descobre debaixo do peso das tradições.
Comentário por Pintoff — Março 9, 2007 @ 12:41 pm