A Semana Política
18/02/07-24/02/07
A vida do Ministro da Saúde, Correia de Campos, não deve causar grande inveja ao comum português. Uma semana depois de enfrentar a ira dos deputados do PS, teve agora de ouvir os gritos de descontentamento de alguns “populares” de povoações atingidas pelas suas “reformas”. E entre os deputados do PS e os “populares”, é difícil escolher qual é a companhia mais indesejável.
José Luís Serra, presidente da Câmara de Valença, demitiu-se dos órgãos nacionais do PS, em protesto com o planeado fecho do serviço de urgência local. No Domingo, teve lugar um protesto contra esse mesmo encerramento, protesto esse que provocou o encerramento temporário da ponte entre Valença e Tui. Foi o tipo de épica revolta popular que, em outras épocas, motivaria animados directos televisivos, mas que, pertencendo o Governo ao PS, merece apenas uma relativa indiferença mediática. Serra ainda terá apelado a uma “atitude cívica” dos manifestantes, no sentido de “desmobilizarem”, mas sem sucesso. “Nem o Salazar era capaz de nos fazer isto, quanto mais um simples ministro”, terá gritado, certamente imbuída de um imenso espírito cívico, uma das manifestantes. O “simples ministro”, por sua vez, lamentou o “estardalhaço”. Talvez tenha pensado que, para “estardalhaço”, já basta o da propaganda governativa, ou o das inúmeras entrevistas que ele próprio deu esta semana, com uma frequência digna de um Santana Lopes em início de governação.
Os protestos não se ficariam por aí. Os autarcas (companhia ainda mais indesejável que os deputados socialistas ou os “populares” indígenas) de Vila do Conde, Chaves, Santo Tirso, Espinho e Vila Pouca de Aguiar, rapidamente tornaram pública a sua discordância dos planos de Correia de Campos. Este rapidamente tornou público o pouco interesse que manifesta por tais opiniões. “Nenhum ministro”, disse Correia de Campos, “tem uma varinha mágica para ali colocar um anestesista com a juventude e o glamour de um Dr. Kildare”, numa referência só compreendida por alguns velhinhos ou gente com uma vida tão desinteressante que lhes permita conhecer a história de séries de televisão emitidas em meados do século passado (como é o caso deste vosso escriba). Domingos Alves, representante do Movimento de Utentes dos Serviços de Saúde (ou seja, um militante do PCP), por sua vez, afirmou que “todo o país está ser encerrado”, o que, se fosse verdade, até nem seria má ideia. Assim, não passa de mais um exagero contestário que apenas favorece a ilusão de “reformismo” que o Governo quer transmitir.
Ilusão essa que dificilmente se pode manter se se prestar atenção ao que se passou a seguir. Notícias de “recuo” do Ministro começaram a sair para os jornais, que chegaram mesmo a falar de autarcas a “clamar vitória”. De facto, reformismo é coisa que o Governo não mostra. Na Saúde, como noutras áreas, tenta-se salvar um “Estado social” com uma doença terminal (provocado por uma exposição prolongada a uma demografia em quebra). Correia de Campos bem tenta ser um Dr. Kildare do Serviço Nacional de Saúde, realizando pequenas cirúrgias na vã esperança de vir a eliminar as maleitas de que ele padece, quando o que o SNS precisa é de uma dra. Cameron (da série House), disposta (como num episódio recente) a acabar com o sofrimento do seu doente, antes que as dores provocadas pela doença que o aflige se tornem insuportáveis (para além do mais, se é glamour que o dr. Correia de Campos procura, acho que todos concordarão que ficará melhor servido com a senhora em causa).
O Governo não se cansa de dizer que a sua governação tem um “rumo”, mas (como mostra a “trapalhada”, para usar um termo que os deputados socialistas muito apreciavam há pouco tempo, na questão das Urgências, ou os recentes números do desemprego) cada vez se torna mais evidente que esse “rumo” é em direcção ao abismo.
“Domingos Alves, representante do Movimento de Utentes dos Serviços de Saúde (ou seja, um militante do PCP), por sua vez, afirmou que “todo o país está ser encerrado”, o que, se fosse verdade, até nem seria má ideia.”
Comentário por André Azevedo Alves — Fevereiro 25, 2007 @ 11:11 pm
Sócrates trava Correia de Campos
Comentário por Peliteiro — Fevereiro 25, 2007 @ 11:36 pm
Vénia
Comentário por helder — Fevereiro 25, 2007 @ 11:37 pm
Bruno Alves,
Excelente.
Apenas uma discordância, o país não vai para o abismo (antes fosse). O país está no charco (o “outro” chamava-lhe pântano).
Comentário por Jose Sarney — Fevereiro 26, 2007 @ 12:07 am