O Insurgente

Janeiro 18, 2007

Há diferenças entre o mediático e o científico (2)

Arquivado como: Ambiente, Internacional, Política, Religião — dos ∫antos @ 8:12 pm

E a prova disso é que mesmo entre os que são da opinião de que existe um aquecimento global fortemente influenciado pela actividade humana se encontram investigadores que são suficientemente realistas para conseguir distinguir algumas questões importantes. [Leitura complementar: Novo relatório aponta para menor impacto humano no aquecimento global]

Chaotic world of climate truth by Mike Hulme, Tyndall Centre for Climate Change Research

Climate change is a reality, and science confirms that human activities are heavily implicated in this change. But over the last few years a new environmental phenomenon has been constructed in this country - the phenomenon of “catastrophic” climate change. It seems that mere “climate change” was not going to be bad enough, and so now it must be “catastrophic” to be worthy of attention.

The increasing use of this pejorative term - and its bedfellow qualifiers “chaotic”, “irreversible”, “rapid” - has altered the public discourse around climate change. This discourse is now characterised by phrases such as “climate change is worse than we thought”, that we are approaching “irreversible tipping in the Earth’s climate”, and that we are “at the point of no return”.

I have found myself increasingly chastised by climate change campaigners when my public statements and lectures on climate change have not satisfied their thirst for environmental drama and exaggerated rhetoric. It seems that it is we, the professional climate scientists, who are now the (catastrophe) sceptics. How the wheel turns. (…)

The BBC broadcast in May its Climate Chaos season of programmes. There is even a publicly-funded science research project called Rapid. Why is it not just campaigners, but politicians and scientists too, who are openly confusing the language of fear, terror and disaster with the observable physical reality of climate change, actively ignoring the careful hedging which surrounds science’s predictions? James Lovelock’s book The Revenge of Gaia takes this discourse to its logical endpoint - the end of human civilisation itself. (…)

It is a short step from claiming these catastrophic risks have physical reality, saliency and are imminent, to implying that one more “big push” of funding will allow science to quantify them objectively. We need to take a deep breath and pause. The language of catastrophe is not the language of science. It will not be visible in next year’s global assessment from the world authority of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). To state that climate change will be “catastrophic” hides a cascade of value-laden assumptions which do not emerge from empirical or theoretical science.

Is any amount of climate change catastrophic? Catastrophic for whom, for where, and by when? What index is being used to measure the catastrophe? The language of fear and terror operates as an ever-weakening vehicle for effective communication or inducement for behavioural change. This has been seen in other areas of public health risk. Empirical work in relation to climate change communication and public perception shows that it operates here too. Framing climate change as an issue which evokes fear and personal stress becomes a self-fulfilling prophecy. By “sexing it up” we exacerbate, through psychological amplifiers, the very risks we are trying to ward off. (…)

The IPCC scenarios of future climate change - warming somewhere between 1.4 and 5.8 Celsius by 2100 - are significant enough without invoking catastrophe and chaos as unguided weapons with which forlornly to threaten society into behavioural change. I believe climate change is real, must be faced and action taken. But the discourse of catastrophe is in danger of tipping society onto a negative, depressive and reactionary trajectory.

5 Comentários »

  1. as noticias do publico e do el pais sobre o rascunho do mesmo relatorio eram bem diferentes dessa do telegraph com o link ali em cima, que acima de tudo é uma confusão do caraças.

    Comentário por toni — Janeiro 18, 2007 @ 9:35 pm

  2. Há uma diferença entre o mediático e o científico, todos os bons cientistas o sabem. Tal como há uma diferença entre o mediático e o económico, o mediático e o cultural, etc.

    O problema é que o lado científico do aquecimento global demorou muito a ser absorvido (engolido?) por muitos e a parte mediática foi imensamente mais ocupada pela pseudociência dos que vêm no problema do aquecimento global uma ameaça às suas ideologias e que o negam baseados em conceitos errados e na desinformação contínua (o exemplo é este site negacionista do pivot da Fox Steven Milloy, http://www.junkscience.com/) . Agora dá-se uma inversão, os cientistas e os que os apoiam têm mais tempo de antena. Já não era sem tempo, porque já começa a ser tarde para impedirmos que as próximas gerações recebam um presente envenenado. Isso não impede os cientistas de continuar a distinguir o que é válido do que é treta nos media, tal como o fizeram quando os media eram dominados pela pseudociência e a má ciência negacionista.

    Comentário por Rui Curado Silva — Janeiro 19, 2007 @ 10:23 am

  3. Não me parece que as alterações climáticas sejam um presente envenenado, nem tampouco um presente da humanidade. Penso antes que as alterações climáticas sempre existiram e existirão naturalmente independentemente da acção humana. Humanas são apenas as análises que se fazem dessas alterações no ponto de vista do (des)conforto que as mesmas nos provocam.
    A poluição é sem dúvida desconfortável e deve ser reduzida, mas não nos deixemos enganar nem convencer de que a mesma cataliza de forma significativa o natural desenrolar do clima.

    Comentário por noddy — Janeiro 19, 2007 @ 12:17 pm

  4. «Há uma diferença entre o mediático e o científico, todos os bons cientistas o sabem»

    Claro que sim. Mas então a definição de “bons cientistas” fica extremamente restrita. Especialmente quanto tantos cooperam com a histeria de massas e desinformação que se observa na comunicação social.

    «O problema é que o lado científico do aquecimento global demorou muito a ser absorvido (engolido?) por muitos e a parte mediática foi imensamente mais ocupada pela pseudociência dos que vêm no problema do aquecimento global uma ameaça às suas ideologias»

    Não sei se reparou mas ainda continua a ser assim. O artigo que menciono é de Novembro de 2006. À medida que as previsões (sejam do IPCC ou de outra organização qualquer) são dadas como menos catastróficas, menos incertas, os modelos se vão modificando e novas teorias ou dados surgem, mais se revoltam aqueles que estão somente interessados no tema para poder avançar a sua agenda política.

    «Agora dá-se uma inversão, os cientistas e os que os apoiam têm mais tempo de antena. Já não era sem tempo, porque já começa a ser tarde para impedirmos que as próximas gerações recebam um presente envenenado.»

    A maior parte dos cientistas que têm tempo de antena sempre foram extremamente favoráveis à tese do aquecimento global (antropogénico). Aliás, não só cientificamente como à potencial acção política sobre ele.

    «Isso não impede os cientistas de continuar a distinguir o que é válido do que é treta nos media, tal como o fizeram quando os media eram dominados pela pseudociência e a má ciência negacionista.»

    Não impede os cientistas mas impede as pessoas que não têm nem conhecimento científico suficiente para avaliar a questão nem para compreender se estão a ser propositadamente ludibriadas. E Não existe “má ciência negacionista”, apenas má ciência.

    Comentário por dos ∫antos — Janeiro 19, 2007 @ 8:21 pm

  5. Sábado, 20 de Janeiro de 2007

    Adivinhem de quem é a culpa…

    O planeta está a aquecer e a culpa, em grande parte, é do homem. Mesmo que hoje se reduzissem drasticamente as emissões de gases com efeito
    de estufa, o aquecimento global é inevitável pelo menos nos próximos cem anos. São as conclusões de um relatório de referência que reúne
    2500 cientistas de todo o mundo. O tom é de alerta. Os decisores políticos saberão lê-lo?
    Por Kathleen Gomes

    É uma verdade inconveniente: os efeitos do aquecimento global vão continuar a sentir-se nos próximos cem anos, mesmo que de hoje para amanhã se eliminem as emissões de gases com efeito de estufa.
    Ou seja, mesmo que você deixe o carro na garagem ou os países industrializados reduzam drasticamente as emissões de gases poluentes para a atmosfera, o aquecimento global não voltará atrás tão depressa.
    E a culpa é sua. Já se desconfiava, as provas são cada vez mais irrefutáveis: o homem tem uma grande responsabilidade nas alterações climáticas registadas nos últimos anos.
    Estas são as principais conclusões do novo relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que não é apenas mais um estudo académico sobre a matéria - é o documento de referência porque reúne 2500 cientistas de todo o mundo com produção relevante sobre mudanças climáticas. Como nota Francisco Ferreira, dirigente da organização ambiental Quercus que tem estudado as alterações climáticas, “este é o relatório científico mais extenso e rigoroso sobre as alterações climáticas à escala mundial”. O relatório será apresentado no início de 2007 mas o seu esboço final foi ontem antecipado pelo diário espanhol El País.

    A culpa humana
    Os cientistas podem hoje afirmar com maior grau de certeza que o homem tem responsabilidade no aquecimento global. Esta é uma preocupação dos últimos dez anos que tem carecido de comprovação científica total, porque é impossível atribuir uma causa directa às alterações climáticas.
    Como lembra o climatologista Ricardo Trigo, do Centro de Geofísica da Faculdade de Ciências de Lisboa, há várias causas naturais que contribuem para o aquecimento global, entre elas, a variação da intensidade de radiação de energia solar e as erupções vulcânicas. O El País propõe esta analogia: é tão impossível dizer que um cancro de pulmão de um fumador se deve ao tabaco quanto dizer, com 100 por cento de segurança, que uma onda de calor se deve à acção do homem.
    O anterior relatório do IPCC, publicado em 2001, já avançava que o homem tinha responsabilidade nas mudanças climáticas verificadas nos últimos 50 anos. Mas o tom era mais cauteloso. O novo relatório vem reforçar essa conclusão com mais provas e precisão. O documento assinala que o aumento de fenómenos extremos - como secas e ondas de calor - “pode ser atribuído a mudanças climáticas antropogénicas”, isto é, produzidas por acção humana.
    Segundo o relatório, nunca os níveis de concentração de gases com efeito de estufa na altmosfera (gases que impedem a saída do calor emitido pela superfície terrestre) foram tão elevados. Nunca quer dizer: nos últimos 650 mil anos. A par disso, o ritmo actual de aumento desses gases na atmosfera “não tem precedentes nos últimos 20 mil anos”, cita o jornal El País.

    O mal está feito
    Há mais más notícias: mesmo que se conseguisse estabilizar a concentração desses gases - o que implicaria mudar drasticamente a actividade e economia mundiais -, o mal está feito e o planeta levaria tempo a reabilitar-se. Ou seja, o aumento da temperatura e do nível do mar vai continuar durante mais de 100 anos.
    Nesse período, as projecções do IPCC apontam para um aumento de temperatura “entre 2 e 4,5 graus, sendo 3 graus o valor mais provável”. Em todo o caso, valores superiores a 4,5 graus “não podem ser excluídos”. Um aumento de dois graus, aponta Francisco Ferreira, já representa um aumento “de proporções catastróficas”.
    O novo relatório do IPCC vem “concretizar suspeições que existem há dez anos”, nota Ricardo Trigo, e isso é importante porque “ajuda a tirar dúvidas a quem ainda as tivesse”.
    Se o mal está feito - se, mesmo que mudássemos a nossa forma de vida tal como a conhecemos, os efeitos vão continuar -, isso quer dizer que é tarde demais?
    “É uma questão importante”, sublinha Ricardo Trigo. “Muitos investigadores que trabalham nos melhores centros internacionais dizem que mesmo que no melhor dos cenários se conseguisse reduzir em 50 ou 60 por cento as emissões do gases com efeito de estufa é imprescindível gastar-se muito dinheiro em soluções tecnológicas que permitam aos países adaptar-se às novas condições. Se há um aumento do nível médio do mar, os países que têm costa precisam de pensar em medidas para enfrentar o problema.”
    O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas foi criado em 1988 pela Organização Meteorológica Mundial e pelo Programa Ambiental das Nações Unidas.

    Comentário por toni — Janeiro 20, 2007 @ 1:09 pm

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