O Insurgente

Dezembro 19, 2006

Re: Pinochet - Uma opinião divergente

Arquivado como: Internacional, Política — André Azevedo Alves @ 1:40 am

Pinochet e AllendeConcordo com quase tudo o que o Miguel aqui escreveu sobre Pinochet embora, tal como o Claudio, não possa dizer que assino por baixo.

A minha visão de Allende e Pinochet não é substancialmente diferente da do Miguel e certamente que discordaria de quem apresentasse o regime de Pinochet como modelar no âmbito da tradição liberal clássica (algo que, até hoje, ainda não vi nenhum liberal clássico fazer). Vou até mais longe: para mim é difícil conceber que um liberal clássico possa olhar para algum regime político como exemplar. Isto porque o Estado, pela sua própria natureza, tende a expandir-se e a violar os direitos individuais, sendo a sua contenção uma tarefa árdua e permanente que exige - mesmo nos contextos menos opressivos - constante atenção por parte de quem preza a liberdade.

Concordo também com o Miguel que o derrube do regime de Allende (impedindo o avanço do totalitarismo comunista no Chile), o abandono voluntário do poder e a transição pacífica para a democracia são pontos que distinguem favoravelmente Pinochet.

Acrescentaria que o notável sucesso das reformas económicas chilenas se deve provavelmente mais a homens como José Piñera, que tiveram a visão e a coragem necessárias para as conceber, defender e implementar do que a Pinochet. Mas não deixo de reconhecer que, nas circunstâncias específicas do Chile na época, essas reformas (que tiveram um forte impacto positivo na vida de milhões de chilenos) não teriam provavelmente sido levadas a cabo sem a concordância de Pinochet, que revelou, apesar das fortes resistências internas no próprio regime, ser possuidor de muito mais bom senso do que os restantes ditadores da América Latina.

Todos estes pontos favoráveis são relevantes e não devem ser esquecidos mas em nada apagam a responsabilidade de Pinochet pelos crimes que lhe possam ser imputados. Embora me pareça prudente desconfiar de alegações sedimentadas em décadas de propaganda comunista (uma das poucas áreas, juntamente com a promoção da miséria em larga escala, em que o comunismo pode reclamar eficácia…) não duvido que, num contexto de guerra civil latente e de comprovada acção de terroristas apoiados pela URSS e por Cuba, tenha havido também crimes praticados pelas autoridades chilenas da época.

As circunstâncias concretas, especialmente em momentos de tensão e conflito aberto, colocam muitas vezes os actores históricos perante escolhas trágicas e dilemas éticos de difícil resolução. Com o conforto que a distância (geográfica e hstórica) confere, um liberal clássico poderá certamente ter boas razões para condenar as escolhas de quem, face às opções concretas no terreno, optou por apoiar o regime autoritário de Pinochet como salvaguarda contra o totalitarismo comunista. É uma discussão legítima e razoável desde que não se caia no erro de confundir um regime chileno que, apesar dos crimes cometidos pelas autoridades, conduziu o país ao desenvolvimento e à democracia, com as dúzias de regimes socialistas que massacraram e torturaram milhões e milhões dos seus próprios cidadãos conduzindo as suas populações a um estado de escravidão e miséria.

Pessoalmente, gostaria de pensar que, mesmo nas circunstâncias históricas do Chile no período em causa, talvez pudesse haver um terceiro caminho viável. E talvez houvesse mesmo, ainda que, provavelmente, por vezes seja mesmo inevitável optar entre alternativas desagradáveis.

10 Comentários »

  1. Parece-me que este texto é mais realista e, sobretudo, menos relativista que o do Miguel.
    Em 1973 não havia muitos caminhos a seguir, não havia muitas direcções a tomar. Os chilenos estavam privados de liberdade, alimentação e de iniciativa individual devido às medidas de Allende. Estavam a caminho da miséria. O Chile teve, assim, que optar por um dos dois caminhos que se apresentaram como solução. E foi isso que fez. Abandonou a letargia muito típica de alguns povos seus vizinhos e optou apoiar massivamente um golpe militar (e após de o presidente do pais ter sido acusado pelo congresso de desrespeito pela constituição). Claro que o regime que se lhe segui teve problemas, mas o saldo global e bastante positivo. Pinochet criou riqueza, devolveu algumas liberdades aos chilenos (de iniciativa, poder de compra, alguma liberdade individual, etc) e fez uma transição pacífica (hoje o Chile ainda é o pais mais desenvolvido da América do Sul devido a essas politicas e isso incomoda muita gente, pois é uma das provas vivas que o comunismo e o socialismo foram derrotados). Claro que as acusações de mortes e torturas são serias, mas não deixa de ser curioso a percentagem de vítimas que não é chileno, porque será que é assim? Como se sabe, na época o Chile foi “invadido” por milhares de revolucionários que viram Pinochet como o maior entrave à sua revolução (outro assunto que, curiosamente, nunca é mencionado…). Vieram da América do Norte e do Sul, da Europa e da Ásia. O objectivo era impedir que os sul americanos vissem outro caminho que não o do comunismo. Mataram (destas vitimas, curiosamente, também, ninguém fala…), torturaram, sabotaram, mas felizmente não tiveram o sucesso que tiveram noutros países.
    O Miguel entrou por um relativismo que eu não acredito. Segundo esse caminho tudo poderá ser melhor. Tudo, visto à posteriori, teria uma solução melhor. Mas assim é tudo muito simples. Assim tudo deixa de fazer sentido.

    Comentário por GPN — Dezembro 19, 2006 @ 9:41 am

  2. O André faz a legitimação do golpe que derrubou um governo democratica/ eleito, que não perseguiu a oposição nem proibiu a imprensa livre, ao contrário das mentiras torpes que por aqui vão sendo propaladas. O André não gostava do rumo tomado pelo governo do socialista Allende e vai daí e aceita o embargo da democracia.
    Estabelece uma equivalência moral entre o democrata Allende e o ditador militar, assassino e corrupto.
    Relativismo também na argumentação que sustenta que apesar do sangue derramado houve o tal milagre (é interessante a analogia com os estalinista, que também opunham a industrialização da União Soviética ao morticínio em massa).
    E ao que parece até nem foi assim um grande milagre:
    “In 1973, the year General Pinochet brutally seized the government, Chile’s unemployment rate was 4.3%. In 1983, after ten years of free-market modernization, unemployment reached 22%. Real wages declined by 40% under military rule.
    In 1970, 20% of Chile’s population lived in poverty. By 1990, the year “President” Pinochet left office, the number of destitute had doubled to 40%. Quite a miracle.”
    http://www.gregpalast.com/tinker-bell-pinochet-and-the-fairy-tale-miracle-of-chile-2.
    O tal milagre que ainda não fez com que, no Chile, se morra menos à nascença e se alcance a esperança de vida da depauperada Cuba castrista, como podem verificar pelo último relatório de desenvolvimento humano da ONU.

    E afinal nem terá sido assim tão milagroso o Chile de Pinochet:

    Comentário por Luís Marvão — Dezembro 19, 2006 @ 12:37 pm

  3. “(…) menos relativista que o do Miguel. (…) O Miguel entrou por um relativismo que eu não acredito. (…)”

    Já vi confusões piores. Mas chamar “relativista” ao que o Miguel escreveu está lá entre elas…

    Comentário por Migas — Dezembro 19, 2006 @ 2:01 pm

  4. Migas, leia isto:”Devemos regermos por princípios absolutos e não por critérios de escala ou de resultados.” Não acha que se nos regermos por princípios absolutos tudo deixa de ter sentido? Como se pode falar em “princípios absolutos” quando falamos nestas questões? Assim, nada entrará na esfera desses princípios absolutos, até porque nem para os liberais esses princípios são “absolutos”. Percebe a minha “confusão” sobre “relativismo”?

    Luis Marvão: http://www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/2000/03/aninat.htm
    http://en.wikipedia.org/wiki/Economy_of_Chile

    Comentário por GPN — Dezembro 19, 2006 @ 3:14 pm

  5. “Migas, leia isto:”Devemos regermos por princípios absolutos e não por critérios de escala ou de resultados.””

    Na altura, fiz um comentário em que critiquei essa frase, que é horrível. Não será exactamente relativista, mas monista (se bem que o relativismo seja, essecialmente, um monismo). Não sei se tudo deixa de ter sentido, mas certamente que nada pode ser compreendido.

    Comentário por Ho — Dezembro 19, 2006 @ 3:46 pm

  6. E subscrevo este texto do AAA. Muito bom.

    Comentário por HO — Dezembro 19, 2006 @ 3:49 pm

  7. GPN,

    Por amor de Deus!, poupe-me a artigos da Wikipedia ;) Se acrecita em milagres, problema seu; não pretendo quebrar a sua fé.

    Comentário por Luís Marvão — Dezembro 19, 2006 @ 4:38 pm

  8. O que é que Jorge Sampaio faz ali na foto ao lado de Pinochet?

    Comentário por Helder — Dezembro 19, 2006 @ 5:26 pm

  9. [...] Já eu, na sequência desta resposta do Miguel a este meu post, continuo sem perceber em que circunstâncias é que liberais avalizaram - condicional ou incondicionalmente - o regime de Pinochet. Mesmo o caso dos famosos conselhos de Friedman parece-me caricato: o próprio Milton Friedman deu basicamente os mesmos conselhos, sob a mesma forma e com a mesma disponibilidade, ao regime chinês sem que nunca se tivessem levantado críticas minimamente comparáveis (porque será?). Ou talvez o aval tenha vindo dos economistas formados em Chicago. Deveria o Departamento de Economia da Universidade de Chicago ter pedido certificados de anti-fascismo aos alunos que mais tarde viriam a desempenhar um papel decisivo nas reformas económicas que fizeram do Chile o país mais desenvolvido e com melhor nível de vida da América Latina? [...]

    Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Re: Ainda sobre Pinochet — Dezembro 19, 2006 @ 5:31 pm

  10. Não acha que se nos regermos por princípios absolutos tudo deixa de ter sentido?

    Não, não acho. Embora prefira a ideia de princípios objectivos e não absolutos. Já escrevi sobre isto aqui.

    Como se pode falar em “princípios absolutos” quando falamos nestas questões? Assim, nada entrará na esfera desses princípios absolutos, até porque nem para os liberais esses princípios são “absolutos”.

    Acho que não só não pode falar em nome dos liberais de forma colectiva e abstracta, como mais ninguém poderia. Apesar de tudo, parece-me que se há princípio absoluto que como tal é considerado é o da liberdade individual defendido pelos liberais.

    Percebe a minha “confusão” sobre “relativismo”?

    Perfeitamente. E o GPN? :-)

    Comentário por Migas — Dezembro 19, 2006 @ 8:14 pm

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